Cientes da extrema dificuldade que terão para chegar a um entendimento depois de uma explosão de violência que, em pouco mais de duas semanas, fez mais de uma centena de mortos – a maioria de palestinos –, milhares de feridos e despertou os ódios acumulados em meio século de conflito, o primeiro-ministro de Israel, Ehud Barak, e o presidente da Autoridade Palestina, Yasser Arafat, reúnem-se hoje, em Sharm El Sheikh, no Egito para tentar negociar um cessar-fogo em Gaza e na Cisjordânia. Esta é a condição mínima para que os dois lados retomem, mais tarde, o penoso processo de negociação iniciado com os acordos de Oslo, em 1993.
Palestinos e israelenses procuraram reduzir as expectativas sobre os resultados possíveis da reunião. O encontro terá como anfitrião o presidente egípcio, Hosni Mubarak, e contará com as presenças do presidente Bill Clinton, do rei Abdullah II, da Jordânia, do comissário de Relações Exteriores da União Européia, Javier Solana, e do secretário-geral das Nações Unidas, Kofi Annan.
A tensão foi exacerbada ontem pela possibilidade de Barak formar um governo de emergência, que incluiria o líder da direita israelense, o ex-general Ariel Sharon, e pelas notícias de dois sequestros – a primeira, envolvendo um coronel israelense, na fronteira com o Líbano, que o movimento radical Hezbollah reivindicou, mas Tel Aviv desmentiu; a segunda, de um não identificado comerciante israelense na Europa, que não fora confirmada. O Hezbollah, que atua a partir do Líbano, e dois grupos de palestinos radicais, Hamas e Jihad, opõem-se a Arafat e ao processo de paz.
Num gesto calculado para deixar claro a Arafat que a alternativa a uma cessação de hostilidades é um endurecimento ainda maior da posição de seu país, o primeiro-ministro de Israel reuniu-se na noite de sábado com Sharon, atual líder do Likud. Comandante da invasão do Líbano, em 1982, Sharon é o israelense mais detestado pelo palestinos. Uma investigação oficial do próprio governo de Tel Aviv concluiu que ele foi indiretamente responsável pelo massacre de centenas palestinos nos campos de refugiados de Sabra e Shatila, no Líbano, perpetrado por milícias cristãs sob a proteção de tropas israelenses.
Sharon ajudou a desencadear a atual onda de violência com a visita que fez no dia 28 de setembro, a al-Haram al-Sharif, em Jerusalém, lugar sagrado para árabes e judeus. Denunciada como um ato deliberado de provocação tanto por Barak como por palestinos moderados, a visita de Sharon aconteceu apenas três dias depois de os líderes israelense e palestino terem se reunido para retomar as negociações de um acordo de paz definitivo, centradas no status de Jerusalém.
‘‘Acima de tudo, a questão agora depende de Barak’’, disse ontem Saeb Erekat, assessor de Arafat. ‘‘Ele precisa escolher: ou nós, os moderados, seremos seus parceiros, ou Sharon – ele não pode ter ambos’’, afirmou Erekat. ‘‘Sharon é o beijo da morte no processo de paz’’. O negociador palestino deixou claro seu ceticismo quanto ao encontro de hoje. ‘‘Honestamente, não quero aumentar as expectativas de ninguém e eu próprio não tenho expectativas altas’’, disse. ‘‘Acho que a situação será um pesadelo’’.
Os limites do acordo possível no encontro de hoje parecem ser, de um lado, a retirada das tropas e tanques israelenses de posições próximas às áreas habitadas por palestinos, exigida por Arafat, e, de outro, uma proclamação do líder palestino aos habitantes de Gaza e da Cisjordânia para que cessem os atos de violências contra alvos israelenses, pedida por Barak.
Barak acusou Arafat de ter incitado a violência. ‘‘Qual, diabos, era seu propósito em ter esse tipo de violência’’, disse ele, em entrevista publicada hoje pela revista Time. ‘‘Eu já sei que muito provavelmente não temos um parceiro para a paz, infelizmente’’. Barak deve reiterar, hoje, sua oposição ao pedido de Arafat para que a violência das duas últimas semanas seja investigada por uma comissão internacional. Tel Aviv vê a iniciativa como uma manobra para tentar isolar diplomaticamente Israel e já indicou que concordará, no máximo, com uma missão bilateral de averiguação de fatos, talvez com alguma presença internacional simbólica.

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