Barak e Arafat começam desafio hoje
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segunda-feira, 10 de julho de 2000
Agência Estado De Washington 
Há 22 anos, o presidente Jimmy Carter trancou o presidente do Egito, Anuar Sadat, e o primeiro-ministro de Israel, Menachen Begin, no refúgio presidencial de Camp David, em Maryland, e, quase três semanas mais tarde, conseguiu o que, na época, muitos consideravam inimaginável: o acordo que garantiu a devolução da península do Sinai ao Egito, ocupada por Israel na guerra de 1967, contra o reconhecimento do Estado judeu pelo maior e mais influente Estado árabe. Estava desfeita a frente árabe que prometera, na criação de Israel, em 1948, jamais reconhecer sua existência e jogar os judeus no mar.
Iniciava-se o processo de paz de Oriente Médio, que frutificaria 15 anos mais tarde nos acordos de Oslo entre os israelenses e os cerca de 3 milhões de palestinos que vivem nos territórios ocupados por Israel.
Completar os acordos de Oslo, negociando os termos para a proclamação de um Estado palestino nos territórios ocupados de Cisjordânia e Faixa de Gaza no prazo estipulado de 13 de setembro, é o objetivo do primeiro-ministro de Israel, Ehud Barak, e o presidente da Autoridade Palestina, Yasser Arafat, a partir de hoje em Camp David. Para o presidente Bill Clinton, trata-se de uma missão quase impossível.
Os dois grandes líderes do processo de paz do Oriente Médio pagaram com a vida. Sadat foi assassinado em 1981, no Cairo, por fundamentalistas islâmicos, pela heresia de reconhecer Israel. O primeiro-ministro israelense, Yitzhak Rabin foi morto por um extremista judeu em 1996, em Tel-Aviv, por ter ousado abrir o caminho do entendimento com os palestinos, admitindo devolver os territórios que suas tropas ocuparam na Cisjordânia e na Faixa de Gaza em troca da paz.
Barak e Arafat terão de negociar as fronteiras do novo Estado palestino, o futuro dos 200 mil israelenses que se estabeleceram nos territórios ocupados e o status de Jerusalém, que os dois lados reivindicam como sua capital espiritual e política.
Carter ainda tinha dois anos de mandato, enquanto Clinton tem seis meses, observou o ex-assessor de segurança nacional da Casa Branca, Zbigniew Brzezinski, que teve um papel central nas negociações de 1978.
Além do fator tempo, Carter tinha também a seu favor a expectativa criada pela histórica viagem que Sadat fizera em 1977 a Israel, em busca da paz, uma iniciativa corajosa que justificou a decisão do presidente norte-americano de convocar a cúpula de Camp David e deixou Menachen Begin na berlinda.
Todo mundo sabia que, se a reunião fracassasse, nós estávamos perfeitamente preparados para responsabilizar um dos lados e aguentar as consequências, em casa, disse Brzezinski. Com as eleições tão próximas, não sei se Clinton tem o mesmo grau de credibilidade para pressionar Barak e Arafat a chegar a um entendimento.
Outro fator complicador é a fragilidade política de Barak. Um ex-general e autoproclamado continuador da obra de pacificação de Rabin, o premier israelense, que chega a Camp David com a coalizão que o apoiava no governo desfeita (três partidos a abandonaram por causa de sua decisão de aceitar o convite de Clinton para negociar com Arafat) e apenas horas depois de ter sobrevivido a uma moção de censura no Knesset por 54 votos a 52, sete a menos do que a maioria mínima de que necessita para governar.
A perspectiva de uma guerra entre palestinos e israelenses é uma hipótese real se, na ausência de um acordo, Arafat honrar sua promessa de realizar o principal objetivo de Oslo, do ponto de vista dos palestinos, e proclamar a criação de um Estado fronteiriço a Israel com fronteiras não negociadas e milhares de civis e militares israelenses instalados no novo país.
A secretária de Estado Madeleine Albright disse estar segura de que Barak, apesar de suas dificuldades políticas, tem o apoio que necessita para cumprir o mandato pela paz que obteve dos eleitores, no ano passado.
Com efeito, o fato de o primeiro-ministro de Israel ser eleito diretamente pelo povo dá a Barak um importante respaldo para negociar com o líder palestino e ceder em alguns pontos.
Obviamente, Arafat tem também interesse num acordo que garanta a proclamação do Estado palestino e, segundo funcionários norte-americanos envolvidos nos entendimentos preliminares a Camp David, está disposto a fazer concessões.
Oficiosamente, houve um afrouxamento de posições e há contornos (de possíveis acordos) emergindo nas questões principais, disse Shibley Telhami, titular da cátedra Anuar Sadat de Paz e Desenvolvimento, na Universidade de Maryland. É uma aposta, mas é uma aposta inevitável, e há uma chance razoável de dar certo.


