Agência France Presse
AUSCHWITZ, Polônia - Para nunca mais esquecer e impedir que o drama da Shoah, o Holocausto, se reproduza, dirigentes de todo o mundo e sobreviventes de Auschwitz se reuniram ontem no campo de extermínio nazista (sul da Polônia) para comemorar o 60º aniversário de sua libertação pelo exército vermelho russo.
Lembrando a chegada dos prisioneiros a Auschwitz, o ruído de um trem freando bruscamente abriu a cerimônia, que reuniu sob a neve e o frio intenso 10.000 pessoas que vieram prestar homenagem aos deportados de Auschwitz-Birkenau, onde mais de um milhão de pessoas, em maioria judias, morreram entre 1940 e 1945.
Mil sobreviventes da tragédia assistiram à cerimônia ao ar livre no campo de Birkenau, ao lado de dezenas de dirigentes poloneses e estrangeiros e de ex-soldados soviéticos.
Alinhadas na neve, ao longo dos trilhos onde paravam os trens da morte, entre as barreiras de arame farpado e os mirantes, milhares de velas representando uma linha de fogo foram colocadas em homenagem às vítimas das câmaras de gás.
''Não devemos permitir que tal tragédia se repita, em nenhuma parte do mundo'', declarou Anatoly Shapiro, comandante das tropas soviéticas que libertaram o campo em 27 de janeiro de 1945, hoje com 92 anos.
As homenagens às vítimas se sucederam na cidade vizinha de Cracóvia pela manhã e, em seguida, em Auschwitz-Birkenau, os libertadores prestaram seus depoimentos, em meio a críticas sobre a indiferença dos Aliados ante o extermínio dos judeus, e os apelos às gerações futuras para que tal drama nunca mais se reproduza, em meio a confissões de culpa coletivas.
O presidente israelense Moshe Katzav criticou os Aliados por não terem impedido o Holocausto. ''Hoje, 60 anos depois, ainda temos dificuldades para entender como, no século XX, o mundo inteiro pôde permanecer em silêncio'', frisou.
As recordações onipresentes dos prisioneiros esquálidos descobertos pelos soldados soviéticos assombram até hoje as memórias dos que participaram desta libertação. O militar russo Iakov Vinitchenko, 79 anos, contou à Agência France Presse (AFP): ''Havia atrás dos arames farpados prisioneiros judeus, poloneses, franceses. Eles choravam muito, fracos, doentes, esquálidos. Nem conseguíamos olhar para eles''.
No local do memorial erguido entre as câmaras de gás em ruínas do campo de Birkenau, o ex-prisioneiro nº 4427, Wladyslaw Bartoszewski, ex-ministro das Relações Exteriores polonês, hoje com 82 anos, tomou a palavra em nome das vítimas polonesas não judias.
''Os governos da Grã-Bretanha e dos Estados Unidos estavam cientes do que acontecia em Auschwitz-Birkenau, mas durante os 15 primeiros meses de existência deste lugar terrível, nós, os prisioneiros poloneses, estávamos sozinhos'', denunciou. ''O mundo livre não estava interessado no nosso sofrimento e na nossa morte'', afirmou.
A ex-presidente do Parlamento Europeu, a francesa Simone Veil, também sobrevivente de Auschwitz, lançou em nome das vítimas judias do nazismo um apelo à luta contra o racismo e o anti-semitismo.
Em mensagem lida pelo núncio apostólico do Vaticano na Polônia, o Papa João Paulo II afirmou: ''Esta tentativa de destruição sistemática de todo o povo judeu representa uma mancha na história da Europa e do mundo inteiro, um crime que marcará para sempre a humanidade''.
Em relação às acusações sobre o silêncio dos Aliados, diversos dirigentes europeus se manifestaram, como o presidente da França Jacques Chirac, para quem a lembrança dos deportados judeus representa ''a consciência de um erro e uma exigência de responsabilidade''.
O presidente russo Vladimir Putin expressou vergonha com o fato de o racismo e a xenofobia ainda persistirem na Rússia.

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