Caracas - A decisão do Centro Carter de se retirar das negociações eleitorais sobre o referendo revogatório do mandato do presidente Hugo Chávez provocou uma reviravolta, aumentando a tensão política na Venezuela, que ontem voltou a registrar protestos opositores violentos no leste de Caracas.
''O Centro Carter decidiu se retirar destas negociações'', anunciou o presidente do Conselho Nacional Eleitoral (CNE), Francisco Carrasquero, que culpou as declarações de um dos cinco reitores do organismo, Sobella Mejías, pela súbita decisão.
O Centro, com sede em Atlanta, nos Estados Unidos, dirigida pelo ex-presidente americano e Prêmio Nobel da Paz Jimmy Carter, ''anunciou que interrompia a mediação mas que abria a possibilidade de voltar a ser chamado, se necessário'', relatou Carrasquero.
Jennifer McCoy e Francisco Diez, do Centro Carter, confirmaram em uma entrevista coletiva à imprensa que decidiram suspender a mediação empreendida a partir de domingo, também na representação da Organização dos Estados Americanos (OEA), para que Governo e a oposição encontrem uma fórmula aceitável pelas partes para verificar mais de um milhão de assinaturas contra Chávez declaradas em observação na terça-feira da semana passada. McCoy e Diez esclareceram, porém, que a Fundação continuará trabalhando na Venezuela.
Diez confirmou que o diálogo foi rompido pelas críticas lançadas ontem pela reitora do CNE Mejías contra a decisão do órgão de pôr em observação as assinaturas opositoras. ''Não sou cúmplice de um ato que causará um prejuízo ao eleitor, ao submetê-lo à repetição de uma ação na qual já manifestou sua vontade'', explicou Mejías.
Carrasquero, considerado o fiel da balança entre dois reitores ligados ao Governo e dois à oposição no CNE, não adiantou quando entregará o primeiro relatório preliminar sobre as 3,4 milhões de assinaturas reunidas pela oposição contra Chávez, cujo anúncio foi adiado de domingo para ontem, devido à onda de violência política na Venezuela.
Desde a última sexta-feira, quatro pessoas morreram e quase 100 ficaram feridas. Na sexta, confrontos entre corpos de segurança e uma grande marcha opositora, que tentou chegar à reunião de cúpula do Grupo dos 15 (G-15, que se prolongou até sábado) e foi contida pela Guarda Nacional, deixaram dois mortos e mais de 50 feridos.
A partir desse momento, a oposição adotou uma estratégia de ''tomada das ruas'', que se manteve ontem em setores do leste de Caracas, deixando outros dois mortos e dezenas de feridos.
Depois do meio-dia de ontem, na zona mais conflituosa, os arredores do reduto opositor Praça Altamira, houve choques entre dezenas de manifestantes que tentavam bloquear a principal auto-estrada de Caracas nessa zona, e efetivos da militarizada Guarda Nacional, que os repeliram com bombas de gás lacrimogêneo e balas de borracha.
Chávez, por sua vez, endureceu seu tom contra Washington, chamando o presidente George W. Bush de ''ilegítimo'', e ameaçou paralisar a venda de 1,5 milhão de barris diários de petróleo aos EUA, se esse país tentar invadir ou aplicar sanções à Venezuela.

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