Aumenta tensão na disputa por Elián
Associated Press
De Miami
A tensão aumentou ontem em Miami, onde o destino do garoto cubano Elián González, de seis anos, está sendo negociado. Mais de cem pessoas derrubaram as barricadas e formaram uma corrente humana em volta da casa, onde Elián vive desde novembro passado, quando foi resgatado de um naufrágio próximo à costa sul da Flórida. Elián não sairá daqui, gritavam os manifestantes.
Tudo começou com um boato. Dois rapazes se aproximaram do grupo, que todos os dias amanhece em frente à casa do tio-avô de Elián, Lázaro González. Contaram que os agentes do Serviço de Imigração e Naturalização (INS, pela sigla em inglês) dos Estados Unidos estavam a caminho, para buscar o menino e entregá-lo a seu pai, Juan Miguel González.
Não vamos permitir que mandem a criança de volta a Cuba, com o pai, disse Milena Lopez, uma das manifestantes que formou a corrente humana. Sua mãe sacrificou a vida pela liberdade dessa criança e vamos respeitar seu desejo, insistiu.
O pai do menino vive em Cuba com a segunda mulher e um filho de seis meses, quer Elián de volta. O presidente dos Estados Unidos, Bill Clinton, e o líder de Cuba, Fidel Castro concordam que o lugar da criança é com o pai.
Nesta semana, o governo norte-americano concedeu vistos de entrada a Juan Miguel González, sua mulher, seu filho, um primo de Elián, uma professora e um pediatra. O objetivo é permitir um reencontro da família em Miami e tornar menos traumática a repatriação do pequeno náufrago.
Mas Lázaro González e sua filha Marisleysis, que acolheram Elián em sua casa há quatro meses, recorreram à justiça para mantê-lo nos Estados Unidos. São apoiados pela poderosa comunidade cubana na Flórida, que transformou o menino num símbolo de quatro décadas de oposição à ditadura comunista de Castro.
De acordo com informações do Departamento de Estado, Juan Miguel González deve viajar primeiro a Washington, de onde aguardará, ao lado do filho, o julgamento do recurso.
Ontem, os advogados da família de Elián em Miami se reuniram com representantes do INS. Eles impuseram duas condições. Querem que o pai de Elián permaneça nos Estados Unidos enquanto o caso está sendo discutido na justiça. Lázaro González recorreu a um tribunal, para pedir asilo político para seu sobrinho. A decisão deverá ser tomada em maio e existe ainda a possibilidade de recorrer à Suprema Corte.
A segunda condição de Lázaro González é que o sobrinho seja examinado por um grupo de psicólogicos independentes, cuja missão será determinar se a criança está em condições de ser repatriada.
O governo norte-americano, em princípio, concordou. Mas não aceita que os médicos dêem o veredicto final. Os psicólogos ajudarão apenas a determinar que medidas devem ser tomadas para tornar menos traumática a volta de Elián a Cuba.
Funcionários do INS suspenderam até amanhã uma reunião com advogados de Lázaro González. Qualquer decisão, sobre o futuro de Elián, será traumática. Além de estar no centro de uma disputa política, a criança foi praticamente canonizada pela comunidade cubana em Miami.
Ontem, um enorme quadro foi erguido no muro da casa dos vizinhos de Lázaro. A pintura mostra o menino, nadando no mar, rodeado pelos seus protetores os golfinhos, que teriam afastado os tubarões, a Virgem Maria, que apareceu no espelho do seu quarto, e Iemanjá, a Deusa do Mar.
Ainda ontem, um guru da Índia somou-se ao grupo que rezava por mais um milagre para salvar Elián das garras de Castro. Ele rezou pela criança e disse que está em greve de fome há cinco dias para ajudar o menino a permanecer nos Estados Unidos.
Em Washington, a Casa Branca declarou considerar um fato a iminente reunião entre o garoto e seu pai. A dúvida agora já não é mais sobre se pai e filho vão-se reunir, mas sim sobre a maneira que esse encontro se dará, disse o porta-voz da Casa Branca Jake Siewert.





