Aumenta a tensão em Gaza e Hebron
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sexta-feira, 16 de janeiro de 1998
Moisés Rabinovici Jerusalém 
France Presse
Pequena intifadaSoldado israelense aponta fuzil para manifestação palestina em Hebron. Na foto inferior, os shebabs, jovens palestinos
Soldados israelenses e policiais palestinos miraram-se com seus fuzis por 20 minutos, ontem, em Gaza, e embora ninguém tenha apertado o gatilho ficou no ar uma constatação: a tensão está aumentando com a contagem regressiva para os encontros separados do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu e do presidente Yasser Arafat com o presidente Bill Clinton, na semana que vem, em Washington.
Um laranjal separava os israelenses dos palestinos que se miraram deitando no chão, alguns entrincheirados. A causa do confronto foi uma manifestação de cerca de 400 palestinos de Gaza contra as últimas decisões do governo israelense, traduzidas ontem pelo presidente Arafat como obstáculos no caminho da paz, bloqueado há dez meses.
Apedrejados, insultados, os israelenses ameaçaram reagir. Então, a polícia palestina, que tentava conter a multidão, tomou posição para revidar, no caso de um ataque. Um tiro só foi disparado mais tarde, a um quilômetro, perto da colônia israelense de Kfar Doron. Acertou na perna um palestino que saía pela porta de um táxi, que não parou numa barreira militar.
Uma miniintifada também eclodiu em Hebron, a cidade santa de judeus e muçulmanos. Mas a polícia palestina conteve os shebabs, os jovens de uma guerra de rua que durou 10 anos. O presidente Arafat recebia o embaixador da Argentina, tratando de uma visita do presidente Carlos Menem, e um enviado da União Européia, o diplomata britânico Derek Fatchett, que está explorando a situação antes da cúpula de Washington. Cada dia numa cidade autônoma, o presidente da Autoridade Palestina quer demonstrar que não tem uma capital, sonhando com Al Kuds (A Santa), o nome árabe de Jerusalém.
Em Amã, na Jordânia, anteontem, Arafat tinha declarado: Se - e que Deus me perdoe - houver um fracasso no processo de paz, então todas as opções estarão abertas. A imprensa tentou fazê-lo antecipar algumas das opções. Uma nova Intifada? Ruptura com Israel? Mas ele não respondeu diretamente, acrescentando sinistramente: Estou preocupado com toda a região. O jornal israelense Maariv acredita ter uma das respostas. Ele revelou, ontem, que os serviços de segurança têm provas de que armas e treinamento foram dados aos palestinos, para o reinício da violência. Tropas israelenses já treinaram uma reação - uma operação que ganhou o codinome de Verão Índio.
As duas últimas decisões do governo israelense frustraram os palestinos e surpreenderam os americanos. A decisão anunciada terça-feira foi a de não se retirar da Cisjordânia enquanto a Autoridade Palestina não cumprir uma série de obrigações assumidas no Acordo de Hebron, há um ano. Líderes palestinos dizem que Israel é que não cumpre em geral os acordos, adiando a devolução de terras da Cisjordânia em troca da paz. Por outra decisão, anunciada anteontem, Israel quer ficar com uma vasta área não contínua da Cisjordânia caso conclua um acordo final de paz.
Feitas as contas, restariam aos palestinos entre 9% a 12% além dos 27% de territórios que já receberam, descontando inteiramente Jerusalém, cerca de 140 colônias, locais históricos, bases militares, faixas extras de fronteiras e estradas, fontes e usinas de energia. O ministro da Indústria e Comércio, Natan Sharansky, cotado para se tornar o novo chanceler no lugar do agora deputado David Levy, prometeu ontem que Israel devolverá um percentual de dois dígitos se os palestinos cumprirem todas as obrigações listadas num documento de 12 páginas.
A quarta reunião do governo israelense em cinco dias, ontem, para examinar a extensão da retirada que Israel proporá em Washington, na terça-feira, ficou inconclusa. Só no domingo é que ela deverá ser encerrada. Mas já se antecipa que dela não surgirá nenhum mapa ilustrando as zonas de segurança e as áreas restituíveis. A posição do primeiro-ministro Netanyahu será a de dizer que a renúncia do chanceler Levy, que encolheu o governo para 61 votos entre 120, o deixou sem espaço para manobra. Ele pode cair tanto se se retirar como se não se retirar da Cisjordânia. Uma manifestação na praça Rabin, em Tel-Aviv, anteontem à noite, reuniu cerca de 30 mil pessoas contra qualquer nova retirada.
Os correspondentes israelenses em Washington descrevem uma Casa Branca hostil a Netanyahu. O presidente Clinton só lhe concederá audiência de uma hora, sem direito a entrevista coletiva, e não o convidará para jantar, nem o hospedará na Blair House. Já o presidente Arafat será recebido com honras de chefe de Estado.


