Aumenta a crise política no Paraguai
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domingo, 27 de maio de 2001
Roberto Lameirinhas Agência Estado De Assunção 
Mais de dois anos depois de ter chegado ao poder, o presidente paraguaio, Luis González Macchi, tenta safar-se nesta semana de um pedido de impeachment apresentado por líderes do opositor Partido Liberal Radical Autêntico (PLRA), que o acusam de mau desempenho de funções e delito comum.
O PLRA fundamenta o pedido de abertura de julgamento político com a acusação de que parentes de González Macchi, sob suas ordens, desviaram US$ 16 milhões do Banco Central paraguaio para uma operação de alto rendimento numa agência do Citibank de Nova York. Os fundos foram depositados na conta de uma fundação presidida por uma irmã de González Macchi, Judith.
O presidente é acusado também de delitos de fraude e abuso de confiança pela compra por US$ 80 mil, feita pela presidência da república de um automóvel BMW blindado roubado no Brasil.
Diria que a possibilidade de a oposição obter sucesso na tentativa de destituir González Macchi é muito pequena, uma vez que dificilmente conseguirá a maioria de dois terços da Câmara de Deputados (de 80 membros) para levar o processo adiante, declarou à AE o cientista político Carlos Martini, titular do Grupo de Ciências Sociais da Universidade Católica. Mas o simples fato de a denúncia ter chegado ao Congresso já aumenta a intensidade do escândalo e lança o governo numa crise de credibilidade.
Para Martini, o maior obstáculo para que o Legislativo afaste o presidente é o fato de seu vice, Julio Yoyito Franco, não pertencer ao Partido Colorado que se mantém no poder de forma ininterrupta desde 1947. A situação seria outra, caso o vice-presidente também fosse colorado.
O Partido Colorado está dividido em três grandes facções, que se digladiam na luta pelo poder. González Macchi pertence ao grupo que era liderado por Luis María Argaña, o vice-presidente assassinado em 23 de março de 1999. O crime provocou uma onda de protestos e causou a renúncia, cinco dias depois, do presidente Raúl Cubas integrante da facção colorada liderada pelo ex-general golpista Lino César Oviedo. A terceira facção do partido é controlada pelo ex-presidente Juan Carlos Wasmosy.
O oviedismo continua tendo um papel importante no Partido Colorado, mas vem declinando como movimento político, prosseguiu Martini. Em todo caso, a emergência dos oviedistas principalmente na hipótese de progredir o julgamento político de um presidente argañista , somada à grave crise econômica pela qual passamos e às fortes suspeitas de corrupção governamental, pode criar um caldo de cultura favorável à instabilidade política.
E foi graças à instabilidade política, aberta com o assassinato de Argaña, que González Macchi chegou à presidência. Oviedo foi acusado pelos argañistas de ter sido o autor intelectual do assassinato do vice. Cubas, considerado um mero fantoche de Oviedo, não resistiu à pressão das violentas manifestações populares cuja repressão deixou nove mortos , renunciou e fugiu para o Brasil. González Macchi, então presidente do Senado, assumiu a presidência para terminar o mandato de Cubas, até 2003.
O presidente do PLRA, Miguel Saguier, qualificou na semana passada o atual governo de o mais corrupto do planeta. Além das suspeitas que recaem sobre o presidente, membros de seu gabinete também são alvo de denúncia. No ano passado, denúncias publicadas pela imprensa paraguaia envolveram o ex-ministro do Interior Walter Bower num assalto ao aeroporto de Assunção, no qual foram roubados US$ 11 milhões.
Em novembro, González Macchi sufocou uma confusa tentativa de golpe atribuída a seguidores de Oviedo. Em abril de 1996, quando o então presidente Wasmosy o destituiu do comando das Forças Armadas, Oviedo tinha tentado tomar o poder também por meio de um golpe. A pressão dos sócios do Paraguai no Mercado Comum do Cone Sul (Mercosul) Brasil, Argentina e Uruguai e dos EUA evitou o êxito da aventura golpista.


