Baikonur (Cazaquistão) - O astronauta Marcos Pontes se mostrou calmo ontem com a proximidade do lançamento da nave Soyuz TM-8, que leva ao espaço a 13 expedição da Estação Espacial Internacional (ISS), e fez questão de reforçar o orgulho nacional na última entrevista coletiva antes do início da missão que o transformará no primeiro brasileiro a viajar ao espaço.
''Quando aquela bandeira do Brasil, que está pintada no foguete, estiver decolando, gostaria que as pessoas vissem não só uma bandeira subindo, mas também o orgulho de ser brasileiro, toda aquela coisa que a gente tem dentro e que tem de colocar para fora de vez em quando'', frisou.
A última entrevista coletiva antes do lançamento, marcado para as 8h29 locais da quinta-feira (23h29 de ontem, horário de Brasília), foi realizada pela manhã no Hotel dos Cosmonautas de Baikonur, onde o americano Jeffrey Williams, o russo Pavel Vinogradov e Pontes que viajará para uma missão de oito dias a bordo da estação orbital estão isolados em quarentena.
Perante a imprensa mundial e autoridades encarregadas da missão, protegidos por um vidro para evitar uma possível contaminação, os tripulantes da nave, acompanhados de seus reservas, falaram durante 40 minutos. Com bom humor, tranquilidade e espírito de equipe, os astronautas abordaram as expectativas para a missão, mas foi Pontes o mais requisitado pelos jornalistas de todo o mundo presentes no local.
''Bom dia. Gostaria de agradecer a todo mundo que nos ajudou em nossa preparação para este vôo. Este é um dia especial para mim e, acredito, para o país inteiro'', declarou Pontes ao ser apresentado, agradecendo aos presentes em inglês, em português e em russo.
''Algumas vezes somos questionados se estamos apreensivos, nervosos, ansiosos, mas estamos incrivelmente calmos. É algo que não podemos explicar, a não ser pelo fato de estarmos prontos. Pavel, Marcos e eu nos tornamos um só como tripulação. Estamos muito bem um com o outro, confiamos um no outro e também nossas famílias estão preparadas e queremos agradecer a elas pelo apoio e o apoio de nossos amigos'', disse Williams, que junto com Vinogradov passará seis meses a bordo da estação.
''Pavel e eu esperamos por muitas coisas para este vôo, mas a primeira da lista é a preparação para a vinda do ônibus espacial, assim como a chegada do alemão Thomas Reider para se unir a nós, voltando a uma tripulação de três na ISS. Nós temos treinado com Thomas por um longo tempo também. E provavelmente a parte mais especial do vôo será sua chegada'', acrescentou o americano.
Pontes não se disse preocupado com o fato de viajar com a 13 expedição da ISS, nem com o eclipse solar de cerca de um minuto que ocorreu ontem. ''Eu acho que é uma coincidência bastante interessante. Muita gente pergunta também a respeito do número 13, juntando isso com o eclipse, o alinhamento dos astros. Acho que tudo está se alinhando para a gente ter uma missão muito boa e penso que é um momento muito especial um presente que a gente ganhou do universo pra mostrar neste dia'', declarou.
Perguntado sobre os sentimentos que emergem com a aproximação do lançamento, foi categórico. ''Acho que a sensação como um todo pode ser resumida em uma palavra: satisfação. Satisfação de poder cumprir uma missão, de poder levar a bandeira do país, de estar representando o país, de olhar para trás e dizer, 'Olha, fiz a minha parte'''.
''No momento em que a gente estiver decolando, gostaria de lembrar o seguinte: há 100 anos tinha um outro brasileiro decolando, também fora do país, na França, para uma missão muito importante'', lembrou, em alusão ao centenário do primeiro vôo de Santos Dumont, o pai da aviação.
Sobre a comparação constante com Yuri Gagarin, pioneiro da cosmonáutica soviética, disse se sentir honrado com a comparação. ''Gagarin é um ídolo para mim, aqui tive a oportunidade de ver os lugares por onde ele passou, treinou... conhecer também como a Nação encara a personalidade'', destacou.
Pontes contou ainda que gostaria de deixar uma mensagem de persistência aos jovens brasileiros. ''Essa é justamente a mensagem que gostaria que fosse lembrada pelos jovens do país no futuro: a persistência de que a gente tem capacidade para fazer as coisas e que quando alguém te entrega uma missão, você vai até o fim, cumpre a missão. É isso que eu gostaria de deixar para eles'', frisou.
Após a coletiva, Pontes se reuniu com a esposa e os filhos para então voltar para o isolamento. De lá, só sairá horas antes do lançamento para os preparativos finais e o embarque na nave Soyuz, previsto para as 05h29 locais de quinta-feira (20h29 de quarta-feira, hora de Brasília).

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