Arquivo FolhaAlfredo Astiz: fétidas palavrasA Argentina fica longe de Paris, mas as fétidas palavras do capitão Alfredo Astiz à revista ‘‘Tres Puntos’’ referem-se à França de diversas maneiras. Para começar, de forma muito direta, pois foi Astiz quem organizou, em dezembro de 1977, o sequestro, a tortura e o assassinato de duas religiosas francesas, Alice Domon e Léonie Renée Duquet. Por essa dupla infâmia, os tribunais franceses condenaram o capitão Astiz in absentia, em 1990, à prisão perpétua.
As cínicas palavras de Astiz tocam a todos nós, quer sejamos argentinos, franceses, chineses ou mongóis. Tocam-nos na nossa qualidade de seres humanos. Elas confirmam o que tantos outros horrores já nos fizeram descobrir: que não há nação especializada no bem ou no mal; em cada recanto do planeta há o mal e o bem misturados.
Depois da última grande guerra, o mundo ficou pensando que os alemães era um povo ‘‘do mal’’, por causa das montanhas de corpos empilhados nas fábricas de cadáveres de Hitler. Mais tarde, foi necessário constatar que isso estava errado e que toda nação, quando as circunstâncias a isso se presta, segrega os seus carrascos, os seus torturadores, os seus terroristas.
Os judeus que Hitler mandou para a câmara de gás hoje torturam palestinos. Os árabes da Argélia que, durante a guerra da independência, foram torturados até a morte pelos franceses, com choques elétricos, hoje degolam mulheres e crianças às centenas, na calada da noite. Os croatas massacraram os bósnios que assassinaram os sérvios que tinham matado as mulheres muçulmanas depois de estuprá-las selvagemente. Os soviéticos enterraram milhões de inocentes sob a neve da Sibéria. E Gengis Khan gostava de erguer, ao lado da rota da seda, pirâmides com os crânios de seus inimigos. A lista é infinita e sociedade nenhuma escapa a essa denúncia.
Essa é a primeira reflexão que as confissões de Astiz sugerem: o mundo é o Império do Mal tanto quanto do Bem. O mal plana sobre todas as nações e pousa onde bem entende, dependendo das circunstâncias, não havendo nação que seja sempre angelical ou o tempo todo maléfica.
Uma segunda reflexão: essas hordas de assassinos, de torturadores distinguem-se dos criminosos de direito comum pelo fato de que estão sempre alegando um dever, uma ideologia, uma ‘‘moral’’. Todos assassinam em nome do humanismo, do ‘‘soberano bem’’, do Deus do Gólgota e do Corão, em nome dos valores mais espirituais. Os homens da Inquisição assassinavam os filhos de Deus para proteger Deus das maléficas empresas do Diabo.
Na Argélia, os soldados franceses torturavam para fazer os ‘‘fellagas’’ aprenderem as lições de civilização da França, pátria dos direitos humanos. Na Argentina, Astiz se emporcalhava de sangue para impedir que o ‘‘caos da democracia’’ se alastrasse. Stalin abatia milhões de homens para proteger o nobre povo soviético dos venenos do capitalismo.
Todas essas justificativas morais, filosóficas, religiosas, proferidas em nome do Bem (e talvez até sincera), em vez de atenuar a culpa dos assassinos, a aumenta, pelo contrário, e torna seus crimes ainda mais nauseabundos. É mais fácil ser indulgente com um pobre cretino que mata para roubar do que com esses ‘‘homens de bem’’ que assassinam em série, em nome de Deus, da democracia, da justiça e da ordem.
Nada mais a acrescentar, após a leitura consternada das palavras do capitão argentino, nova página na interminável história da infâmia. E não há lição nenhuma a tirar delas. A não ser a de que o mal é indestrutível e, se lhe cortamos um tentáculo, crescem-lhe outros dez, outros cem.
Será uma razão para que nos resignemos. Talvez haja quem diga que sim, preferindo refugiar-se numa espécie de fatalismo resignado, ou trancar-se em sua torre de marfim. Outros, e felizmente são a maioria, fortificarão com isso a sua vontade de opor-se ao horror e ao mal, onde quer que ele descubra as suas garras, mesmo sabendo que este é um combate que nunca terá fim.

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