Assembléia condena governo de Habibie
Pepe Escobar
Agência Estado
De Jacarta
A Assembléia Consultiva do Povo (MPR) condenou irremediavelmente os quase 17 meses do turbulento governo B.J. Habibie. No início da madrugada de hoje (horário local), o discurso de prestação de contas do sucessor de Suharto foi rejeitado por 355 votos com 322 votos a favor, 9 abstenções e 4 votos inválidos. Deputados choraram, rezaram, prostraram-se, invocaram a misericórdia de Alá. As galerias explodiram de alegria. Essa foi a primeira eleição realmente séria nos 54 anos de história da república.
Ninguém é capaz de estimar quantos deputados embolsaram 1 bilhão de rupias cada (cerca de US$ 150 mil), o preço de um voto pró-Habibie: na segunda-feira, quando o general Wiranto retirou sua candidatura a vice, o preço chegava a US$ 500 mil. A polarização do resultado reflete o que vários deputados confirmaram à Agência Estado no lobby do Mulia Hotel a cinco minutos da Assembléia: a rejeição a Habibie é sobretudo da classe média urbana.
Delegados das províncias distantes ainda o apoiam e se submetem à máquina política do sistema Suharto. Mas, para a grande massa dos indonésios, Habibie representa o último bastião da Nova Ordem de Suharto. Jamais poderia ser aceito como símbolo de uma mudança radical.
Rejeitado pela MPR, Habibie não é obrigado por lei a retirar sua candidatura. Mas, logo após a rejeição das contas, Akbar Tanjung, presidente do Golkar o partido que o nomeou , pediu que ele desistisse. Habibie teria oito horas para formalizar sua candidatura à presidência, antes da votação de hoje. Será impossível imaginar quantos bilhões de rupias trocaram de contas bancárias nas últimas horas.
Jacarta amanhece, diante da eleição mais importante de sua história, inundada de adesivos Habibie No Way. Mas hoje é Megawati que deve enfrentar seu julgamento político. Seu partido, o PDI-P, tem só 154 cadeiras na MPR. Precisa de 351 votos. Até agora, com sua atitude de rainha-mãe, ela demonstrou ser incapaz de formar uma crucial coalizão.
O resultado da eleição presidencial, mesmo com a rejeição de Habibie, permanece um enigma. Sociólogos alertam que o wayang o teatro de bonecos à sombra das elites políticas está causando uma tremenda confusão entre as massas, que temem uma discrepância brutal entre os resultados da eleição legislativa de junho e a decisão, hoje, da MPR. Megawati, em uma raríssima entrevista ao Jakarta Post antes da rejeição de Habibie não descartava a possibilidade de violência se o voto de hoje não estiver de acordo com a expectativa popular.
Para Megawati, a presidência decorre naturalmente de sua vitória nas eleições de junho: Nossos 35% (dos votos) são reais. Os outros 65%, não. Mas parece que estão querendo amputar nossos direitos por um processo que chamam de constitucional. Eu queria saber com qual interpretação esse constitucional está de acordo. Megawati ainda enfrenta uma tremenda oposição do voto islâmico: Não posso negar meus ancestrais balineses. O pai da pátria, Sukarno, era 50% balinês. E Bali não é islâmica: é hinduísta.
Megawati, no entanto, foi apoiada publicamente pelo primeiro-ministro australiano, John Howard, e a rupia está em alta desde que o general Wiranto retirou sua candidatura à vice na chapa de Habibie. São sinais importantíssimos: significam que tanto os mercados quanto a comunidade internacional estão a seu lado.
Mas o fator complicador o oportunista líder islâmico Gus Dur não desiste. Diz que recebeu sinal verde para a presidência de seu guru espiritual no leste de Java. Nos círculos diplomáticos, sua candidatura é vista como uma demência. Diplomatas comentam que, após uma recente operação na Alemanha, Gus Dur está cada vez mais megalômano. Clinicamente cego, desloca-se sempre apoiado em um ajudante.
Na segunda-feira, Gus Dur indicou a super-raposa do Golkar, Akbar Tanjung, como seu vice-presidente. Mas fontes em Jacarta garantem que Akbar tem um pacto de ferro com Megawati, selado há duas semanas. Gus Dur chegou mesmo a sugerir uma Megawati líder da oposição. Motivo: seu amor pela democracia.
Mesmo envolta nas brumas do wayang, tudo indica que a nova Indonésia deve configurar-se conforme o seguinte cenário: Megawati presidente, Akbar como um poderoso e ativo vice (conhece tudo da máquina governamental) e Habibie o último elo do sultanato de Suharto despachado para a Sibéria política. Caso contrário, como afirmou um delegado do PDI-P, será o Armagedom.





