Jacarta - Uma semana depois do maremoto que arrasou o sudeste asiático causando mais de 130.000 mortes, segundo o último balanço, o mundo realiza uma verdadeira corrida contra o tempo para socorrer milhões de desabrigados e impedir o surgimento de epidemias. A Organização Mundial de Saúde (OMS) anunciou a aparição dos primeiros casos de doenças contagiosas nas regiões afetadas pelos tsunamis de 26 de dezembro.
Como resultado de um grandioso movimento de solidariedade, a ajuda pública prometida se aproxima de dois bilhões de dólares (500 milhões correspondentes ao Japão e 350 aos Estados Unidos). ''Há um nível de solidariedade internacional nunca visto'', ressaltou o coordenador da ajuda de emergência da ONU, Jan Egeland.
No entanto, dois grandes jornais americanos, 'Washington Post' e 'Los Angeles Times', criticaram ontem a lentidão do governo Bush em reagir à catástrofe e sugeriram que os Estados Unidos aproveitem a ocasião para melhorar sua imagem entre os muçulmanos, especialmente na Indonésia.
Enquanto isso, o balanço das vítimas continua crescendo e milhares de pessoas permanecem desaparecidas, com pouquíssimas esperanças de serem encontradas. A ONU estima que os maremotos podem ter provocado 150.000 mortes e ressalta que o número ''absoluto e definitivo'' provavelmente nunca será conhecido.
Somente o número de brasileiros desaparecidos na Ásia subiu de 131 para 143, no fim de semana. Na Tailândia, aguarda-se informação de até 50 brasileiros.
O governo registrou 314 pedidos de busca - 171 pessoas foram encontradas. Até ontem, havia sido confirmada a morte de dois brasileiros.
Hoje, o governo brasileiro envia um carregamento de 60 t para a região. O DC-10 disponibilizado pela Varig e abastecido pela Petrobras parte do Rio para o Sri Lanka com 28 t de remédios do Ministério da Saúde, 29 t de água doadas pela Schincariol e 4 t de alimentos e outras doações coletadas pela Embaixada do Sri Lanka em Brasília. Esse é o segundo carregamento enviado pelo Brasil. No dia 8, mais uma leva de doações parte em um avião da FAB (Força Aérea Brasileira).
O secretário-geral das Nações Unidas, Kofi Annan, participará na quinta-feira, em Jacarta, de uma conferência sobre as consequências do maremoto. A reconstrução pode levar 10 anos e custar ''milhares de milhões de dólares'', advertiu Annan, referindo-se à ''catástrofe mais importante que a ONU teve que enfrentar'' em sua história.
As Nações Unidas, como o conjunto das organizações internacionais, estão tendo que enfrentar uma operação de ajuda sem precedentes, destinada a 10 países diferentes. Foi estabelecida uma ponte aérea até o norte da ilha de Sumatra, a região mais próxima ao epicentro do terremoto e onde o número de mortos confirmados é de 79.906, com 3.600 desaparecidos. O Ministério da Saúde da Indonésia teme que haja 100.000 mortos.
Segundo a ONU, mais de um milhão de pessoas em Sumatra (e 700.000 no Sri Lanka) dependerão durante meses da ajuda externa para se alimentar. Uma semana após o desastre, a ajuda apenas começa a ser distribuída nas populações afetadas. As equipes de socorro vêm enfrentando enormes dificuldades logísticas.
Extensas regiões costeiras do noroeste de Sumatra continuarão inacessíveis por terra durante pelo menos três semanas. ''Temos de transformar pequenas pistas de aterrissagem danificadas em aeroportos'' e, para evitar o congestionamento, é preciso recorrer a navios que transportem helicópteros, já que eles ''podem percorrer a costa sem obstruir as pistas'', explicou Egeland.
Segundo ele, necessita-se também de equipes de controle do tráfego aéreo, uma centena de barcos e pontos de desembarque, várias centenas de caminhões, aviões de transporte de grande porte, como o C-17, e outros menores, como o C-130.
O porta-aviões americano ''Abraham Lincoln'' se encontra na costa de Sumatra e a França enviará seu porta-helicóptero ''Joana D'Arc''.
Helicópteros americanos Sea Hawk lançavam garrafas de água sobre a região ontem, para alívio dos habitantes. Segundo as equipes de socorro, os refugiados estão desidratados e famintos.
No Sri Lanka, que conta oficialmente com 29.729 mortos e 5.240 desaparecidos, a ajuda internacional chega num ritmo muito inferior às necessidades e as autoridades estão preocupadas com a situação sanitária. Na parte norte da ilha, militares estrangeiros esperavam a luz verde dos rebeldes tâmeis, que controlam parte da região. No sul, um primeiro destacamento de 200 marines americanos, de um total de 1.500, estava previsto para chegar ontem, procedente da base de Okinawa, no Japão.
Na Tailândia, que conta com 4.993 mortos (2.461 deles estrangeiros) e 3.810 desaparecidos, começaram as tarefas de limpeza e reconstrução. No entanto, o Ministério da Saúde teme a aparição de doenças respiratórias infecciosas, da malária, da cólera e do tifo entre os sobreviventes e na população da província de Phang Nga.
Na Índia, onde o balanço da catástrofe alcançou 9.067 mortos e 5.511 desaparecidos, a assistência parece insuficiente e em certos casos caótica. Autoridades das zonas afetadas denunciaram uma repartição desigual. Nos arquipélagos de Andaman e Nicobar (a cerca de 1.000 km da Índia continental), foi anunciada uma terrível escassez de equipes médicas.

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