Luis torres de la Llosa
France Presse
A Direção de Inteligência Nacional (DINA, polícia secreta chilena) tinha a autonomia da Gestapo, recorria a métodos de tortura dignos da Inquisição espanhola e seu chefe, Juan Manuel Contreras, só recebia ordens do general Augusto Pinochet. As conclusões foram tiradas a partir de consultas aos arquivos secretos abertos pelos Estados Unidos.
Os 5.800 documentos do período 1973-1978 da era Pinochet no Chile, abertos ao público na última quarta-feira em Washington, e só divulgados neste final de semana, dão uma imagem detalhada do aparato repressor chileno e seu modo de operar.
‘‘Desde a criação da DINA como o braço de inteligência nacional do governo, o coronel Contreras só prestou contas a Pinochet e recebeu ordens suas’’, destacou um informe do serviço de Inteligência do Pentágono, datado de 15 de abril de 1975.
Contreras está detido há quatro anos no Chile pelo assassinato, nos Estados Unidos, do ex-chanceler socialista chileno Orlando Letelier, em 1976. O crime foi atribuído à DINA no âmbito da operação ‘‘Condor’’, montada pelo governo chileno em cooperação com outros países da região - entre eles o Brasil - para intercambiar informações e eliminar opositores.
Toda prova relativa ao vínculo de comando direto e exclusivo entre Pinochet e Contreras é importante frente a um eventual julgamento por violação dos direitos humanos reinvindicado pela Justiça espanhola contra o ex-ditador, detido em Londres desde outubro passado.
Segundo o documento, com relação à organização da DINA, suas práticas e operações, a autoridade do coronel Contreras era quase absoluta, exclusivamente sujeita a um improvável veto presidencial. Na época, a importância da DINA estava em progressão, com a construção de uma sede de 24 andares em Santiago. De 1,5 mil, o número de seus membros saltou para 2 mil, a maioria militares.
Segundo o Pentágono, a DINA contava ainda com a colaboração de 2.100 civis - dos quais apenas uma minoria recebia remuneração por seus serviços - e que constituíam a Brigada de Inteligência Cidadã. Seu papel era, fundamentalmente, ajudar a DINA a deter suspeitos.
‘‘(As técnicas utilizadas) provêem diretamente da Inquisição espanhola e deixam, com frequência, a pessoa interrogada com danos corporais visíveis’’, destacou um comunicado confidencial datado de fevereiro de 1974.
A brutalidade da DINA era tal que suscitou discórdia entre setores das forças armadas, preocupadas com a imagem do Chile no exterior e com o poder crescente e incontrolável da polícia secreta.
Em janeiro de 1975, um comunicado da CIA destacou ‘‘críticas crescentes nas altas esferas do governo (chileno) sobre as atividades não-autorizadas da DINA; vários generais do Exército apresentam a Pinochet provas corroboradas de tortura e maus-tratos aos presos pela DINA’’.
O Pentágono destacou em um informe redigido três dias depois que ‘‘vários oficiais do Exército tentaram convencer o presidente de que a DINA fosse colocada sob a direção e o controle de uma autoridade do tipo de um Conselho de Segurança Nacional e já não mais da Presidência. Na época, Pinochet não recebeu estas sugestões com entusiasmo’’.
‘‘Os temores de várias altas autoridades chilenas sobre a possibilidade de que a DINA se tornasse uma Gestapo moderna parecem confirmar-se’’, continuou o documento do serviço de inteligência militar americano.
A oposição interna à DINA e suas ‘‘táticas bárbaras’’ provinha em particular dos altos comandos do Exército e da Força Aérea, partidários de práticas mais comedidas de tortura, sob a supervisão médica para evitar danos corporais permanentes. Segundo o informe, a Marinha e o Corpo de Carabineiros adotam, ao contrário, uma atitude ‘‘mais pragmática’’ em sua colaboração com a DINA.
Estima-se que 3.200 pessoas tenham morrido no Chile durante o regime de fato (1973-1990) nas mãos das forças de segurança. Versões da imprensa que contabilizaram 10 mil mortos foram consideradas ‘‘não-confiáveis’’ por órgãos de defesa dos direitos humanos, como a Anistia International.
Segundo o departamento de Estado norte-americano, essa é apenas a primeira parte de uma série. Publicações posteriores incluirão mais informações sobre o período 1973-1978 e os períodos 1968-1973 e 1979-1991.

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