Aristide renunciou ''para evitar banho de sangue''
PUBLICAÇÃO
domingo, 29 de fevereiro de 2004
France Presse 
Porto Príncipe - O ex-Presidente do Haiti diz que renunciou para evitar uma luta sangrenta. Ele abandonou o país após quatro semanas de violência
Porto Príncipe - O ex-presidente haitiano Jean-Bertrand Aristide afirmou que renunciou ao poder ''para evitar um banho de sangue'', em comunicado lido neste domingo pelo primeiro-ministro Yvon Neptune.
O Panamá decidiu na tarde de ontem conceder asilo temporário ao ex-presidente do Haiti, Jean Bertrad Aristide a pedido dos Estados Unidos, informou o Ministro das Relações Exteriores, Harmodio Arias. Segundo Arias, a decisão foi tomada depois de receber um telefonema do Secretário de Estado dos Estados Unidos, Colin Powell.
''Minha renúncia evitará um banho de sangue'', disse o ex-presidente. ''A vida para todos, a morte para ninguém'', ressaltou Aristide, que assinou sua renúncia este domingo de manhã antes de abandonar o país após quatro semanas de violência.
''Decidi respeitar e permitir ao povo que respeite a Constituição, que não deve ser manchada com o sangue do haitiano. O Haiti viverá em paz'', acrescentou o ex-mandatário.
Como prevê a Constituição haitiana, o governo interino foi assumido pelo presidente da Corte de Cassação, Boniface Alexandre, que prestou juramento na manhã de ontem, domingo, no gabinete do primeiro-ministro Yvon Neptune.
Imediatamente depois de assumir, Alexandre pediu calma à população haitiana, enquanto a capital se convertia novamente em cenário de saques e episódios de violência depois de se saber da partida de Aristide.
O presidente interino se comprometeu a ''trabalhar para que a lei prevaleça'' e jurou ''proteger os fracos, sem deixar de respeitar os direitos dos fortes''.
A crise política no Haiti, que deixou mais de 100 mortos nos últimos três meses, explodiu depois das eleições presidenciais de 2000, boicotadas pela oposição, e que devolveram o poder ao presidente Jean Bertrand Aristide que renunciou neste domingo, partindo para o exílio.
Os rebeldes estão dispostos a baixarem as armas e esperam a chegada de uma força internacional ao Haiti o mais rápido possível, disse este domingo seu líder, Guy Philippe, em declarações à AFP.
''Estamos dispostos a depor as armas. Precisamos de uma força internacional e esperamos que venha antes de terça ou quarta-feira'', acrescentou Guy Philippe, por telefone, de Cap Hatien.
Pelo menos quatro pessoas foram mortas a tiros ontem, domingo, em Porto Príncipe, cidade que ficou mergulhada no caos, após a renúncia do então presidente haitiano, segundo jornalistas da AFP.
Cronologia da crise no Haiti
Em 2001
Fevereiro 7: Posse de Aristide. Devido à crise, a ONU põe fim a sua missão em Haiti.
Dezembro 17: um misterioso ataque armado ao palácio presidencial apresentado pelo governo como uma tentativa de golpe de Estado deixa 13 mortos em Porto Príncipe. Represálias contra a oposição.
Em 2002
Setembro 4: A Organização de Estados Americanos (OEA) vota uma resolução que prevê eleições durante o segundo trimestre de 2003
Novembro 17: Várias dezenas de milhares de opositores protestam em Cabo Haitiano, a segunda cidade do país. Centena de manifestantes oficialistas respondem, bloqueando as principais artérias de Porto Príncipe.
Dezembro 16: Um plano da oposição para sair da crise reclama a saída do poder do presidente Aristide e é qualificada como uma ''declaração de guerra'' pelo governo.
Em 2003
Janeiro 24: Greve geral lançada pelo ''grupo dos 184'', uma coligação ampla da sociedade civil, que inclui as associações patronais, em Porto Príncipe. Setembro 22: Assassinato de Amiot Métayer, chefe de um grupo armado (Exército Canibal) em Gonaives (noroeste) que, até então, apoiava Aristide. O grupo acusa ao governo e passa para a oposição sob o nome Frente de Resistência Revolucionário de Artibonite.
Novembro 14: Milhares de seguidores do governo evitam que se realize uma anifestação do ''grupo dos 184'' apesar das garantias dadas pelas autoridades.
2004
Janeiro 1: celebração oficial em Porto Príncipe do bicentenario da independência de Haiti, boicotada pela oposição. Thabo Mbeki, presidente sul-africano, é o único chefe de Estado estrangeiro que participa dos festejos.
Fevereiro 5: Gonaves, quarta cidade de Haiti, cai em mãos da Frente de Resistência Revolucionária de Artibonite. O assalto à delegacia local deixa ao menos 11 mortos.
Fevereiro 19: Aristide se declara disposto a ''morrer (...) para defender'' seu país.
Fevereiro, 28: A Casa Branca atribui a responsabilidade pela crise a Aristide. Fevereiro, 29: Aristide assina a renúncia às 6H00 locais (11H00 GMT) e parte para a República Dominicana. Evans Paul, dirigente da oposição, diz que aceita o plano da comunidade internacional que prevê o envio de uma força de segurança ao Haiti. O presidente da Corte de Cassação, Boniface Alexandre, assume o governo interino. Os embaixadores da França e Estados Unidos em Porto Príncipe, Thierry Burkard e James Foley, anunciam o envio de tropas internacionais ao Haiti nos próximos dias.


