France Presse
De Buenos Aires

A Argentina lembrou ontem com atos de todo tipo o 24º aniversário do golpe de Estado militar de 24 de março de 1976, sem ter conseguido ainda sarar as feridas de um passado com milhares de desaparecidos, incluindo bebês roubados em centros clandestinos de detenção.
Anteontem, pela primeira vez desde que os militares tomaram o poder, um alto chefe militar reconheceu ante a Justiça que o roubo de bebês sob a ditadura (1973-1990) ‘‘não foi um fato isolado’’, fez parte de um plano sistemático, ‘‘determinado por uma autoridade com alto nível de decisão’’.
‘‘Tudo relacionado com esta investigação não aconteceu como consequência de atos esporádicos e isolados’’, declarou ao juiz federal Adolfo Bagnasco o tenente-general Martín Balza, chefe do Exército sob a presidência de Carlos Menem (1989-1999).
Sobre os nascimentos de bebês com mães no cativeiro, que ocorreram sob a órbita do Exército, disse que ‘‘isto foi determinado por uma autoridade com um alto nível de decisão do comando da Zona 4’’, em referência (sem citar o nome) ao ex-comandante de Institutos Militares, Santiago Omar Riveros, que ainda vai prestar depoimento a Bagnasco. Balza foi ainda o primeiro militar a fazer uma autocrítica pública sobre a repressão ilegal.
A ditadura militar causou 30 mil desaparecidos, segundo ligas humanitárias e 10 mil casos confirmados oficialmente. Também há 230 denúncias oficiais de roubo de bebês nascidos em cativeiro, 66 dos quais foram localizados até agora pelas Avós da Praça de Maio.