Argentina prende comerciante iraniano
Argentina prende comerciante iraniano
Ariel Palácios
Agência Estado
Arquivo Folha
1994Atentado à bomba contra a Associação Mutual Israelita-Argentina matou 96 pessoas em Buenos AiresAs autoridades argentinas detiveram anteontem à noite em Buenos Aires um comerciante iraniano por ordem do juiz federal Juan José Galeano, que investiga o atentado à bomba contra a sede da Associação Mutual Israelita-Argentina (AMIA), ocorrido em 1994.
Após semanas seguidas de pressões da chancelaria argentina contra os funcionários da embaixada iraniana em Buenos Aires, o governo de Teerã convocou Eduardo Demayo, encarregado de negócios argentinos no Irã, para informá-lo de que o país realizaria sanções comerciais contra a Argentina. O motivo da atitude iraniana é a escalada das tensões diplomáticas entre os dois países. Por seu lado, a Chancelaria argentina anunciou o retorno de seu secretário comercial.
A ruptura das relações comerciais poderia ser o primeiro passo para o rompimento definitivo.
Segundo fontes da Casa Rosada, a ruptura completa poderia ser anunciada na semana que vem. Há três anos ambos os países retiraram seus respectivos embaixadores.
A crise Argentina-Irã entrou na reta final quando, na semana passada, o diretor-geral do FBI, Louis Freeh, visitou a Argentina e declarou que o órgão que dirige entregaria em junho um volumoso relatório sobre a participação iraniana nos atentados à Embaixada de Israel em Buenos Aires e à AMIA.
A gota dágua para a decisão foi a prisão de um exportador de carnes iraniano, com fortes vínculos com a embaixada do Irã em Buenos Aires. O empresário, cujo nome a chancelaria argentina não divulgou, está à disposição do juiz Juan José Galeano, que no mês passado retomou a pista iraniana dos atentados à Embaixada de Israel e à AMIA. Em junho, Galeano acusará formalmente diplomatas iranianos suspeitos de terem organizado os atentados terroristas. Além disso, o juiz especula solicitar a captura internacional do líder dos xiítas no país, o sacerdote Moshe Rabbani, expulso da Argentina.
Desde os atentados à Embaixada de Israel em 1992 e à associação beneficente judaica AMIA em 1994, as relações Irã-Argentina nunca estiveram tão próximas de serem cortadas totalmente. Em diversas ocasiões, o próprio presidente Carlos Menem e ministro do governo argentino afirmaram que o Irã, por meio do grupo terrorista fundamentalista muçulmano Hizbollah, estaria envolvido nos dois atentados, cujas autorias, nunca foram reivindicadas. Os ataques, nos quais morreram mais de uma centena de pessoas e outras 500 ficaram mutiladas e feridas, ainda não foram resolvidos, embora tenha-se descoberto a participação de ex-militares caras-pintadas e integrantes da polícia da província de Buenos Aires.
O ministro do Interior da Argentina, Carlos Corach, declarou ontem que as sanções não o preocupam, já que o esclarecimento dos atentados é um assunto prioritário, sobre qualquer outra consideração de âmbito econômico ou comercial. O presidente da Delegação Associações Israelenses na Argentina (DAIA), Rubén Beraja, declarou que a detenção do cidadão iraniano foi importante, porque assim irá se aproximando da verdade.
Beraja afirmou que o terrorismo se sente à vontade nos países fracos. Segundo ele, onde se reage, o terrorismo busca outros cenários de ação. Se neste atentado ficasse provada a culpabilidade do Irã, seria como uma ação de guerra entre Estados, e aí, nesse caso, a Argentina não ficaria sozinha, disse aludindo a um certo apoio dos Estados Unidos.
Fontes da Chancelaria argentina disseram à AE que as sanções poderiam consistir na redução ou suspensão das compras de produtos argentinos. A medida atingiria os exportadores argentinos, que em 1997 venderam ao Irã US$ 639 milhões. A relação Irã-Argentina, do ponto de vista comercial, é a que proporcionalmente é mais superavitária. Uma balança comercial tão favorável está ficando uma raridade para a Argentina: seu déficit total acumulado nos últimos doze meses é de US$ 6,1 bilhões, e segundo o FMI, chegará a US$ 8 bilhões até o fim do ano.
Casualmente, desde os ataques terroristas, as vendas argentinas ao Irã aumentaram cem vezes, consistindo basicamente em trigo, cevada, milho, óleos, automóveis e tratores, além de carne e produtos farmacêuticos. As importações argentinas do Irã eram de somente US$ 1,6 milhão, formada por tapetes persas e outras peças de artesanato.
Com o resfriamento das relações, a Argentina perde terreno para países que haviam restabelecido laços diplomáticos e comerciais com o Irã, como os integrantes da União Européia (UE). Após a vitória do moderado Mohammed Khatami como presidente do Irã, a UE enviou seus embaixadores de volta a Teerã, após quase uma década de ausência.





