O peronista Ramón Puerta tornou-se ontem presidente interino da Argentina, no mesmo ato em que a Assembléia Legislativa (que reúne as duas Casas do Parlamento) aceitou a renúncia apresentada quinta-feira por Fernando De la Rúa, num país ainda em estado de ebulição e espanto provocados por uma das mais graves crises sociais e econômicas de sua história.
''Sou o presidente provisório'', disse Puerta no Congresso.
A Assembléia voltará a se reunir hoje, às 19 horas locais, para decidir quem finalizará o mandato de De la Rúa, se Puerta ou outro político ou governador provincial.
Por não haver vice-presidente na Argentina desde outubro do ano passado, quando Carlos 'Chacho' Alvarez renunciou por divergências com De la Rúa, o primeiro na linha de sucessão automática é Puerta, titular interino do Senado.
A demora em designar rapidamente o presidente pela Assembléia deve-se ao fato de que até agora o opositor Partido Justicialista (PJ, peronista) está mergulhado numa agitada disputa interna sobre quem assumirá o poder.
O peronismo, maioria no Congresso e vencedor das eleições parlamentares de 14 de outubro, não tem um líder reconhecido por todas as correntes, apesar de a presidência do partido ser ocupada pelo ex-presidente Carlos Menem.
De la Rúa reapareceu inesperadamente ontem pela manhã na Casa Rosada, para firmar o decreto de levantamento do estado de sítio que impôs há dois dias, a fim de conter a onda de saques. Mas o presidente interino Puerta acabou por restabelecer o estado de sítio (leia abaixo).
Dois importantes governadores peronistas assinalaram ontem que é preciso consenso no Partido Justicialista (PJ, peronista) para convocar eleições presidenciais num período de 45 a 60 dias a fim de eleger um sucessor para o presidente demissionário, Fernando De la Rúa. Néstor Kirchner (Santa Cruz, Sul) disse que ''esta é a posição predominante''. José Manuel de la Sota (Córdoba), acrescentou que a ''opção está ganhando consenso no PJ'', para que ''o próximo presidente possa assumir em março'' de 2002 e ''tenha todo o apoio e legitimidade populares que os cidadãos estão esperando'' mediante ''uma nova liderança democrática, que ganhe a confiança das pessoas e restaure o otimismo''.
O demissionário presidente argentino Fernando De la Rúa acusou a oposição peronista de ter cometido ''um erro'' ao rejeitar a proposta de formar um governo de unidade nacional, levando-o desse modo a apresentar sua renúncia.
''O justicialismo (peronismo) cometeu um erro ao precipitar os tempos e negar o apoio ao governo de unidade'', afirmou De la Rúa.
Moratória O peronista Adolfo Rodríguez Saá, governador da província de San Luis (centro) e um dos candidatos a presidência da Argentina, disse ontem que o novo governo ''deve suspender imediatamente o pagamento do principal e dos juros da dívida'' e implantar ''um plano de austeridade, não de ajuste''.

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