Argentina discute o mistério Yabrán
Argentina discute o mistério Yabrán
Circunstâncias da morte de milionário geram polêmica entre os argentinos e mudam quadro político na corrida sucessória
Ariel Palácios
Especial para a AE
France PresseArquivo ambulanteYabrán era suspeito de ser o mandante do assassinato de um jornalista e teria se suicidado sob pressão policial Quando ontem, ao meio-dia, foi enterrado o empresário Alfredo Yabrán, os argentinos ainda não haviam acordado da estupefação que lhes provocou a notícia de seu suicídio. A morte do empresário - suspeito de ser o mandante do assassinato do jornalista fotográfico José Luis Cabezas - colocou um drástico fim às especulações de que estaria refugiado na Jamaica, no Paraguai, ou na Síria, terra de seus avós. Com o enterro, também estavam liquidadas as possibilidades de que algum dia pudessem ser conhecidos os fatos sobre o assassinato de Cabezas, uma morte que abalou a política argentina no último ano e meio.
Ontem, Yabrán foi o principal tema nas ruas, jornais e nas reuniões de políticos e empresários. Nem os incidentes na Cidade de Córdoba - ocorridos entre 700 policiais e manifestantes do funcionalismo público - e os tiros dados no carro do secretário-geral da Confederação Geral do trabalho (CGT), Rodolfo Daer, em Buenos Aires, conseguiram disputar a atenção com o caso Yabrán. No entanto, apesar de ter sido o assunto do dia no resto do país, o ministro da Defesa, Jorge Dominguez, declarou que na reunião do gabinete presidencial de ontem de manhã a morte de Yabrán não havia sido tema de comentários.
Yabrán suicidou-se anteontem às 13h10, quando um grupo de policiais entrou em uma de suas fazendas na província de Entre Rios. Ao se ver cercado, o empresário teria dado um tiro de espingarda na boca. Contudo, as diversas versões policiais sobre a morte estão causando suspeitas. Em uma delas, quando se ouve o tiro, há uma mulher que grita desesperada: Alfredo, Alfredo!. Em outra versão, a mesma frase é pronunciada por um homem. Uma terceira versão sustentada pelo delegado que entrou no lugar, é a de que após abrir a porta, Yabrán teria olhado nos seus olhos e disparado o tiro.
Não há nenhuma testemunha do suposto suicídio ao vivo, disse a juíza Graciela Pross Laporte, de Gualeguaychú, em Entre Rios, contradizendo as primeiras versões dos próprios policiais. Rodeada por uma multidão de jornalistas nunca antes vista na pacata cidade, sustentou que o cadáver foi identificado por dois parentes diretos do empresário, como Alfredo Nallib Yabrán. No entanto, negou-se a explicar como o cadáver foi identificado, já que seu rosto estava desfigurado pelo disparo da arma que o empresário usava para caçar javalis. A juíza também não explicou como Yabrán, que estava calçando tênis, teria conseguido ativar o gatilho. Nestes casos, como devido ao comprimento do cano é impossível armar o disparo com a mão, o suicida aperta o gatilho com o dedão do pé.
José Felipe Yabrán, um dos irmãos de Yabrán, que reside na região, havia dito no dia anterior, o cadáver está irreconhecível, mas acho que se trata de meu irmão. A juíza também recusou-se a explicar se haviam sido utilizados outros meios para identificá-lo. No entanto, disse que Yabrán deixou uma carta onde afirma que é inocente, endereçada simplesmente a um sr. juiz. Em outra carta, endereçada a uma secretária, havia uma quantia não especificada de dinheiro. Além dessas cartas, os principais jornais da Argentina receberam uma outra do empresário para ser publicada em espaço publicitário no fim de semana. Nessa carta, com o título Meu nome é Yabrán, o empresário diz - sem citar o ex-ministro Domingo Cavallo e o governador Eduardo Duhalde - que o assassinato de Cabezas foi utilizado de forma política. Segundo Yabrán, a morte de Cabezas foi utilizada para desviar a atenção do atentado à AMIA, realizado em 1994. Na carta, Yabrán afirmava que os juízes foram comprados, da mesma forma que as testemunhas.
Ontem, um corpo foi enterrado como sendo o de Yabrán, contando somente com a identificação dos parentes. Segundo o certificado de óbito, não havia dúvidas de que o cano da arma encontrava-se dentro da boca no momento do disparo. A morte de Yabrán foi provocada por 32 chumbos descarregados pela espingarda.
O enterro foi realizado no cemitério da cidade de Pilar, a 50 quilômetros de Buenos Aires. Somente 40 pessoas participaram do funeral, entre parentes, seus advogados e amigos. A esposa de Yabrán, Maria Cristina, deprimida, preferiu não comparecer. Nenhum integrante do governo esteve presente e a imprensa, xingada pelos parentes de Yabrán, foi proibida de entrar no cemitério.
A mídia argentina foi exuberante na cobertura sobre o suicídio. O jornal Clarin publicou 32 páginas analisando exaustivamente a vida e a morte do empresário. O La Nacíon foi mais sóbrio, mas publicou uma manchete que refletia as suspeitas sobre a morte: Yabrán morreu como viveu: no mistério. O sempre irreverente Página 12 deu a manchete Matou-se ou o mataram? e analisou cinco hipóteses sobre a morte: Yabrán suicidou-se porque não queria ser apanhado; suicidou-se convencido de que se não terminasse com sua vida sua família é que seria penalizada, foi assassinado como queima de arquivo para que não delatasse seus sócios e os negócios obscuros em que estava envolvido; foi assassinado a mando da polícia da província de Buenos Aires por envolvimento na morte de Cabezas; e, finalmente, segundo a hipótese do delegado Victor Fogelman - que investiga a morte do fotógrafo - Yabrán não morreu e que o corpo enterrado ontem é de outra pessoa parecida com o empresário.





