Argélia tem eleições tranquilas
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 23 de outubro de 1997
AE-Reuters 
France PressMuçulmana vota em Argel. Frente Islâmica chamou por boicoteMilhões de argelinos votaram ontem nas primeiras eleições locais em sete anos no país mas poucos acreditavam que a votação irá pôr fim ao banho de sangue no país norte-africano. Não acreditamos em mais nada, afirmou um eleitor à Reuters.
A eleição transcorreu sem maiores incidentes de segurança, mas testemunhas relataram que continuavam esporádicos confrontos na floresta de Bainam, nos arredores de Argel, onde forças de segurança continuam com uma campanha de uma semana para expulsar rebeldes muçulmanos.
Todas as sessões eleitorais fecharam às oito da noite (horário local) depois que o Ministério do Interior, usando a autoridade atribuída a ele pela lei eleitoral, estendeu a votação em uma hora em 11 das 48 províncias do país, incluindo a capital Argel.
Os resultados só devem ser divulgados hoje. O Ministério do Interior anunciou que 56% dos cerca de 16 milhões de eleitores votaram até às 18 horas. O comparecimento às urnas foi menor em Argel, onde recentes massacres de centenas de civis em seus arredores foram atribuídos pelas autoridades a rebeldes muçulmanos. O Ministério considerou que o comparecimento às urnas na capital durante as sete primeiras horas foi de 19%.
As seções eleitorais nos antigos bastiões islamitas de Bab el Oued e o Casbah estavam quase vazias, com os residentes aparentemente atendendo ao chamado da proscrita Frente Islâmica de Salvação (FIS) para boicotarem a votação.
O presidente Liamine Zeroual, que venceu confortavelmente a primeira eleição presidencial multipartidária da Argélia em 1995, votou na escola Ghazali, em Mouradia, nas proximidades do palácio presidencial nas colinas de Argel. O governo vê a eleição como um estágio final na construção de um sistema democrático e restauração das instituições públicas arruinadas durante os cerca de seis anos de insurgência islâmica.
As eleições são para eleger representantes para mais de 1.500 conselhos locais e 48 autoridades provinciais. Mais de 80 mil candidatos de 37 partidos e grupos disputam 15 mil cadeiras.
A FIS, que assumiu o controle de mais de metade das prefeituras nas últimas eleições locais de 1990 e um ano depois dominou uma eleição parlamentar, denunciou a votação de ontem e defendeu o boicote.
As autoridades em janeiro de 1992 cancelaram a eleição parlamentar. Logo depois, um tribunal colocou a FIS na ilegalidade e o país afundou numa guerra civil. Cerca de 65 mil pessoas já morreram na violência política desde então.
Um líder exilado da FIS disse na quarta-feira que o resultado da eleição fará pouco para conter a violência enquanto o governo continuar se recusando a negociar com a oposição islâmica.
O Partido Democrático Nacional (RND), agrupando o núcleo dos apoiadores de Zeroual, é favorito para ganhar a maioria das prefeituras. A seguir viria o Movimento de uma Sociedade Pacífica (MPS), de orientação islamita, e o antigo partido governista, a Frente de Libertação Nacional (FLN).
Os três partidos são parceiros no governo liderado pelo RND. Mas o MPS e a FLN têm mantido certa distância de seus principais parceiros.
No final do ano, as recém-eleitas autoridades locais devem completar as reformas parlamentares, escolhendo 144 membros da Câmara alta, ou o Conselho da Nação.


