Apesar da dramática escalada da violência na Argélia, onde são mortas dezenas de pessoas a cada dia, o governo do presidente Liamine Zeroual rejeitou o pedido dos EUA e de países da União Européia de que seja permitida uma investigação internacional sobre os massacres. A recusa foi comunicada ao embaixador americano Cameron Hume, convocado na noite de terça-feira a dar explicações sobre o pedido de investigação divulgado horas antes pelo Departamento de Estado.
‘‘O governo reiterou (a Hume) a categórica rejeição de qualquer idéia de criar uma comissão internacional de investigação, qualquer que seja sua forma e venha de onde vier’’, informou a agência oficial de notícias. O jornal governamental ‘‘El Moudjahid’’ também deixou clara, em sua manchete de ontem, a posição oficial: ‘‘Já basta!’ - referência ao que as autoridades consideram uma ‘‘tentativa de ingerência e intervenção externa em assuntos nacionais’’.
Segundo o jornal, a União Européia (UE), que estuda formas de lançar um programa de ajuda às famílias das vítimas dos massacres, ‘‘deveria começar a preocupar-se com os terroristas a quem acolhe e protege em nome da defesa dos direitos humanos’’.
Apesar disso, o chanceler britânico, Robin Cook, reafirmou a disposição da UE de discutir com Argel formas de conter a violência e ajudar as comunidades abaladas pelas carnificinas. ‘‘Precisamos deixar claro para o governo argelino que a profunda preocupação que existe na Argélia é dividida (pela comunidade internacional) e estudar com os argelinos como eles podem ser capazes de agir com maior êxito contra os terroristas’’, disse Cook à BBC. Ele quer que uma delegação européia visite a Argélia e faça um relatório da situação para a reunião de chanceleres da UE marcada para o dia 26 em Bruxelas.
O governo argelino atribui a autoria dos massacres aos rebeldes integristas muçulmanos que lutam para criar um Estado estritamente islâmico. Entretanto, sobreviventes das chacinas acusam as Forças Armadas de inação e há especulações de que os militares estariam até tolerando algumas matanças para aumentar o sentimento antiintegrista no país.
Ontem, a rádio estatal divulgou mais três massacres ocorridos desde segunda-feira em aldeias da montanhosa província de Relizane, no oeste da Argélia. Segundo a emissora, foram mortos na madrugada de ontem 29 civis em Sidi Mammar e, na noite anterior, 12 em Uled Bunif e 21 em Hdjailia. Ao todo, 48 pessoas ficaram feridas. Por causa da violência, centenas de moradores estão abandonando a região. Desde o início do Ramadã (mês sagrado muçulmano), no dia 30, mais de mil pessoas foram mortas - a maioria, degolada ou queimada - por supostos integristas muçulmanos no país.
A revolta fundamentalista começou em 1992, depois que o governo anulou eleições parlamentares cujo primeiro turno fora vencido pela Frente Islâmica de Salvação (FIS), posteriormente proscrita. Mais de 60 mil pessoas já morreram no conflito.

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