O ministro alemão de Relações Exteriores, Klaus Kinkel, afirmou ontem que a Argélia ‘‘reagiu positivamente’’ ao plano da União Européia (UE) de enviar uma missão ao país, abalado por sucessivos massacres de civis. Segundo Kinkel, o objetivo da missão seria definir que ajuda humanitária pode ser enviada aos sobreviventes das matanças.
‘‘O embaixador alemão na Argélia foi informado pelo governo (argelino) de que o país reagiria positivamente à iniciativa’’, disse Kinkel. Circulou a versão de que Kinkel foi informado pelo colega britânico, Robin Cook, de que a Argélia já teria aprovado formalmente a missão, mas isso não foi confirmado. Cook disse ontem estar ‘‘ansioso’’ para que uma delegação da UE ‘‘estabeleça os fatos e veja como a Europa pode ajudar’’.
Na quarta-feira, Kinkel e Cook concordaram sobre a necessidade de enviar uma delegação à ex-colônia francesa o quanto antes. A idéia foi apoiada ontem numa reunião de funcionários da União Européia em Bruxelas. A delegação seria composta por diplomatas de Luxemburgo, da Grã-Bretanha (presidente de turno da UE) e da Áustria, mas, para não irritar Argel, não teria, pelo menos oficialmente, caráter investigativo.
Na noite de quarta-feira, o governo argelino reiterou, entretanto, que não aceitará o envio de nenhuma comissão internacional de investigação ao país. ‘‘A Argélia, um Estado soberano, renova sua categórica rejeição de qualquer tentativa de interferência em seus negócios internos’’, assinalou o gabinete num comunicado. ‘‘O governo considera qualquer iniciativa de estabelecer (uma comissão de investigação) uma tentativa de levantar dúvidas quanto à fonte do terrorismo, algo que a Argélia condena e rejeita totalmente’’, acrescentou, pedindo que a população se mobilize contra o terrorismo.
Argel atribui a autoria dos massacres a rebeldes integristas muçulmanos que lutam para criar um Estado estritamente islâmico. Entretanto, sobreviventes das matanças acusam o Exército de inação e há especulações de que os militares estariam tolerando as matanças para que cresça o sentimento antiintegrista no país.
A imprensa argelina informou ontem que mais 30 pessoas foram mortas por supostos integristas muçulmanos desde a noite de terça-feira: 14 foram assassinadas num falso bloqueio policial na rodovia entre Temouchent e Tlemcen, 7 foram degoladas em Tlemcen (230 quilômetros a sudoeste de Argel) e 9 foram ‘‘horrivelmente decapitadas’’ na periferia da capital.
Desde o início do Ramadã (mês sagrado muçulmano), no dia 30, mais de mil civis foram mortos na Argélia. A revolta fundamentalista começou em 1992, depois que o governo anulou eleições parlamentares cujo primeiro turno fora vencido pela Frente Islâmica de Salvação (FIS). Ao todo, mais de 65 mil pessoas já morreram no conflito.

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