Árabe morre depois de salvar menino judeu de afogamento
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 07 de agosto de 2000
Giorgio Raccah Associated Press De Tel Aviv 
Buquês de flores enviados por desconhecidos encheram o corredor do departamento de reanimação do Hospital Poria de Tiberíades onde ontem, depois de uma tenaz luta pela sobrevivência, morreu Omari Jada, um pedreiro palestino de 24 anos do povoado de Habla, Cisjordânia. Sua abnegação manifesta justamente no dia em que o rabino Ovadia Yosef comparou os palestinos a víboras comoveu Israel.
Muitos, ignorando que ele já havia morrido, continuavam telefonando pedindo notícias sobre o homem que no sábado jogou-se nas águas do lago de Tiberíades para salvar um menino judeu, Gosha Lepatev, de seis anos, que não conseguia chegar à margem.
Segundo seus familiares, Omari não sabia nadar e, apesar disso, lançou-se no lago ao ouvir os gritos de Gosha.
Comecei a engolir água explicou depois o menino. Gritei até que vi esse homem de roupa vermelha perto de mim. Agarrei-me fortemente a ele. Nunca esquecerei seu rosto.
Omari o levantou, mas também foi arrastado pelas águas: completamente extenuado, implorou para que alguém salvasse o menino. Lançou-se então ao lago um policial, que conseguiu levar o garoto até a margem. Omari já estava longe. Muitas pessoas tentaram em vão salvá-lo, mas só depois de 20 minutos conseguiram chegar com ele à margem.
Omari Jada não era bem-vindo em Israel. Sem a permissão, ele havia se infiltrado na sexta-feira com dois amigos e passado a noite na praia.
No sábado à tarde ele deveria regressar a Habla, onde o esperavam seus dois filhos Malek, de dois anos, e Viara, de 10 meses e sua mulher, Kafya, no sexto mês de gravidez.
Em torno de sua cabeceira, no hospital, reuniram-se seus parentes todos muçulmanos praticantes e os familiares do menino, judeus emigrados da Rússia e residentes em Nazaré.
Apesar do pessimismo dos médicos, juntos rezaram pedindo por um milagre. O destino fez de nós uma única família, disse a mãe de Gosha, Tanja.
Não me entristece pensar que meu filho se sacrificou para salvar a vida de um menino judeu, disse o pai de Omari, Abdel Halim Jada. Judeus, árabes, qual é a diferença? Somos todos seres humanos. Eu teria feito a mesma coisa.
Abdel disse só esperar que Omari vá para o paraíso e que esse episódio sirva de lição de comportamento para muçulmanos e judeus.
Enquanto isso, o rabino Ovadia Yosef, líder espiritual do partido ortodoxo Shas, tentou recuar depois de ter provocado um escândalo com suas declarações sobre as vítimas do Holocausto (reencarnações de grandes pecadores) e sobre os árabes (víboras), mas não convenceu.
Também foi preso ontem na proximidades de sua casa um jovem judeu que dizia estar decidido a meter uma bala na cabeça de Yosef. Na verdade, o jovem estava desarmado e aparentemente não tinha como concretizar sua ameaça.
Entretanto, como filho de judeus que escaparam dos campos de concentração, o jovem compartilhava, da sua maneira, a indignação de milhares de pessoas ao saberem que, para Yosef, o Holocausto foi nada menos do que um instrumento divino para colocar as coisas em seus lugares, castigando seis milhões de almas pecadoras.
Debaixo da chuva de críticas provocada pelo sermão de sábado, interpretada como uma espécie de justificação metafísica do genocídio cometido pelos nazistas e uma bomba contra o processo de paz com os palestinos, Yosef declarou que ele também carrega o luto pelo Holocausto.


