POSSE Após 30 anos, Chile tem governo socialista Ricardo Lagos assume a presidência do país hoje incluindo no governo partidos e correntes da aliança que garantiu a sua eleição France PresseRELAÇÕES INTERNACIONAISRicardo Lagos cumprimenta o político Mohamed Benaissa, ao lado do primeiro-ministro Abderrahmane El Youssoufi Associated Press De Santiago Ricardo Lagos Escobar, primeiro socialista eleito para governar o Chile desde Salvador Allende – deposto pelo sangrento golpe desfechado por Augusto Pinochet, em 1973 –, assume hoje a presidência do país e o desafio de consolidar a democracia chilena, recuperar a economia nacional e cumprir a promessa de campanha de promover o crescimento e diminuir as profundas desigualdades da sociedade chilena. Adicionalmente, terá pela frente a tarefa de aliviar a tensão nos quartéis – onde os ânimos votaram a se acirrar por causa da ação judicial que corre no Chile contra Pinochet – e impedir que o poder militar se transforme num empecilho para a governabilidade do país. Lagos receberá a faixa presidencial das mãos de seu antecessor, Eduardo Frei, e será investido na presidência numa sessão solene do Congresso, em Valparaíso, a 120 quilômetros da capital chilena, Santiago. Participam da cerimônia de posse 13 chefes de Estado e de governo estrangeiros, entre os quais, o presidente brasileiro, Fernando Henrique Cardoso. O polêmico general Pinochet aparentemente não participará da cerimônia. ‘‘Seria uma piada de extremo mau gosto se Pinochet se utilizasse de seu cargo de senador vitalício para comparecer à posse de Lagos’’, disse o cientista político Francisco Rojas, diretor da Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso). Depois de passar 503 dias em prisão domiciliar em Londres, da qual foi libertado com base num laudo que atestava sua frágil saúde, Pinochet passou a exibir uma surpreendente recuperação depois de chegar a Santiago, no dia 3. Lagos chega ao poder depois de derrotar nas urnas, por estreita diferença, o direitista Joaquín Lavín – que tentou afastar-se da imagem de Pinochet para obter votos dos eleitores moderados. É o terceiro político da coalizão de quatro partidos de centro e de esquerda, a Concertación, a chegar à presidência desde o início da transição democrática, em 1990. Os primeiros foram Patricio Aylwin – de quem Lagos foi ministro da Educação – e o próprio Frei. Tido como o herdeiro político de Allende, Lagos tem assegurado que dará prioridade a reformas que ponham fim aos resquícios da ditadura Pinochet que marcam a vida política chilena – como os ‘‘senadores designados’’ pelos militares, também conhecidos como ‘‘bancada militar’’. De acordo com o deputado democrata-cristão Pablo Lorenzini, os contrapesos serão a marca do governo de Lagos. O presidente vai reunir ministros de vocação e passado esquerdistas e secretários da área econômica formados nas universidades de Harvard e Chicago, templos do neoliberalismo. O novo presidente receberá um país que sai lentamente de uma profunda crise econômica, reflexo das crises monetárias em países da Ásia e nos maiores mercados da América Latina. A posse de Lagos será celebrada em todo o país com atos populares e eventos artísticos. Depois da solenidade em Valparaíso, o novo presidente participará de um ato político em Concepción, a 500 quilômetros de Santiago. À tarde, retornará à capital para um evento similar. Em Lima, a poucas horas da viagem para o Chile, o presidente peruano, Alberto Fujimori, desistiu ontem de participar da cerimônia de posse de Lagos. A informação, sem nenhum outro detalhe, foi dada pelo Departamento de Imprensa do governo peruano.