A determinação dos países da Otan de continuar as operações militares contra a Iugoslávia, manifestada no fim de semana, em Washington, durante o cinquentenário da aliança atlântica, parece estar influenciando certas áreas políticas, principalmente da oposição ao presidente sérvio, Slobodan Milosevic. Esses setores haviam aderido a Milosevic recentemente, na véspera do início dos ataques aéreos, quando se formalizou um governo de união nacional.
As primeiras fissuras no regime tornaram-se mais evidentes com as declarações que Vuk Draskovic, vice-primeiro-ministro sérvio, fez na TV sérvia, criticando Milosevic, o sistema de propaganda do regime, e defendendo um compromisso com os países membros da aliança, tendo como avalistas a ONU e a Rússia.
Draskovic admitiu que está pronto para aceitar a presença de uma força da ONU, que poderia incluir tropas dos países da Otan. Essa é a primeira vez que um dirigente sérvio, antigo oposicionista, admite formalmente a necessidade de um acordo com a Otan para a suspensão dos bombardeios. Draskovic falou domingo à emissora de TV sérvia Studio B e à rede americana de TV CNN.
Ontem, Draskovic denunciou a tomada da TV Studio B pelo Exército, poucas horas depois de ele ter criticado o governo. ‘‘Estou muito desapontado pelo fato de o Exército ter invadido a Studio B e ordenado a veiculação direta dos programas da TV estatal’’, declarou.
Draskovic, principal dirigente do Movimento Sérvio de Renovação (direita nacionalista), também havia manifestado sua indignação diante da propaganda do regime nas emissoras de TV e de rádio estatais, que proferem insultos contra os países da aliança. Dirigindo-se à população sérvia, Draskovic não poderia ter sido mais claro: ‘‘A opinião pública mundial está contra nós.’’
Segundo ele, é preciso acabar com a ilusão de que os sérvios poderão derrotar as forças da Otan, advertindo os iugoslavos que não se deve esperar também nenhuma ajuda financeira ou militar mais substancial da Rússia, que só tem condições de oferecer seu apoio político, além de apresentar-se como um mediador ideal.
Draskovic, segundo analistas, pode estar-se preparando para uma eventual substituição de Milosevic ao fim dessa guerra, surgindo como o homem providencial aos olhos da aliança, no futuro, quando vai ser preciso desenvolver uma outra difícil negociação, tão ou mais custosa do que a atual ofensiva militar.

mockup