Sem assustar-se com o mau tempo nem com a intensificação da diplomacia, a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) atacou alvos na Iugoslávia ontem. Grande parte da capital do país ficou sem energia elétrica pelo terceiro dia, enquanto o comandante supremo da Otan insistia que a aliança atlântica vencia a guerra - mesmo com a morte de dois pilotos norte-americanos durante treinamento com um helicóptero Apache.
Mesmo consternado com a morte dos pilotos, o presidente dos Estados Unidos, Bill Clinton, declarou-se decidido a proseguir a campanha aérea contra a Iugoslávia - composta pelas repúblicas de Sérvia e Montenegro.
‘‘Intensificaremos os bombardeios até alcançarmos nossos objetivos’’, insistiu Clinton durante almoço com soldados e oficiais da base militar norte-americana de Spangdahlem, Alemanha, e em meio a notícias de que a Otan tem planos para enviar 60 mil homens a Kosovo.
France PresseBaixasUm dos 20 helicópteros antitanque Apache na Albânia explodiu nas montanhas de Rinas matando os dois pilotosO presidente norte-americano voltou a enumerar as cinco condições para encerrar o bombardeio: suspensão da campanha de limpeza étnica em Kosovo; retirada total das tropas, polícia e grupos paramilitares sérvios do território; autorização para o regresso, com segurança, de todos os albaneses étnicos expulsos do território; autorização para ingresso na província de forças internacionais comandadas pela Otan; e início sério de negociações para a formação de um governo autônomo e democrático em Kosovo.
Pela manhã, o presidente americano havia mantido encontro, em Bruxelas, com o secretário-geral da Otan, Javier Solana. Eles fizeram um balanço da Operação Força Aliada, que hoje entra em seu 43º dia. ‘‘Não ficou acertada nenhuma mudança nos planos originais para constituição de uma força militar de paz, comandada pela aliança’’, ressaltou o porta-voz da Otan, Jamie Shea, desmentindo informação publicada por ‘‘The Wall Street Journal’’ de que a instituição prepara o envio de 60 mil homens para a região. ‘‘O plano original prevê 26 mil homens, que ingressarão em Kosovo após a assinatura de um acordo de paz.’’
O general Wesley Clark, comandante da Otan, também negou a informação do jornal, que tem excelente trânsito no Pentágono. Clark reuniu-se com Clinton na sede da Otan e garantiu ao presidente que a aliança está vencendo a guerra apenas com os bombardeios aéreos.
France PresseGuerra aéreaWesley Clark, comandante da Otan, negou ofensiva terresteA notícia publicada pelo WSJ causou mal-estar entre as autoridades alemãs, que patrocinam hoje, em Bonn, uma reunião de cúpula dos chanceleres do Grupo dos Oito (G-8).
Nessa conferência, serão debatidas as últimas iniciativas de paz - especialmente a russa -, que prevêem o desembarque na Iugoslávia de uma força sob bandeira da ONU e mandato do Conselho de Segurança. ‘‘Não acredito que nesse encontro consigamos um consenso’’, destacou o ministro das Relações Exteriores alemão, Joschka Fischer. ‘‘É um assunto complexo, que exige mais tempo.’’
Ele admitiu, contudo, que a aproximação entre os pontos de vista é bem maior agora, numa referência aos recentes esforços diplomáticos do negociador russo, Viktor Chernomyrdin, que retornou ontem a Moscou depois de conversar com Clinton, o vice-presidente americano, Al Gore, e o secretário-geral da ONU, Kofi Annan.
É muito provável que o chanceler italiano, Lamberto Dini, faça um balanço do encontro entre o primeiro-ministro italiano, Massimo D’Alema, e o líder moderado albanês étnico, Ibrahim Rugova, que ontem desembarcou em Roma - acreditava-se que ele estivesse sob prisão domiciliar em Pristina - para debater uma solução da crise, com aprovação de Belgrado.
De Spangdahlem, Clinton dirigiu-se à base de Ramstein, onde conversou em separado com os três soldados norte-americanos que passaram 32 dias confinados numa prisão militar sérvia. Ele admitiu que poderá libertar dois soldados sérvios, capturados pelas forças da Otan. Mas insistiu: ‘‘Isso não pode ser interpretado como gesto de boa vontade, pois Belgrado não merece isso.’’
Clinton lamentou a morte dos dois pilotos de um helicóptero Apache ontem na Albânia, identificados como David A. Gibbs, de 38 anos, e Kevin Reichert, de 28, as duas primeiras vítimas das forças da Otan segundo seu comando. As causas da queda, ocorrida na região montanhosa de Rinas (Albânia), estão sendo investigadas. Teria sido um acidente conforme a Otan. Testemunhas disseram que o Apache - o segundo acidentado em duas semanas - virou uma bola de fogo antes de cair.

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