Macron discursa após a vitória: combate às divisões e reconstrução da relação entre Europa e cidadãos
Macron discursa após a vitória: combate às divisões e reconstrução da relação entre Europa e cidadãos | Foto: Patrick Kovarik/AFP



Paris - O centrista pró-europeu Emmanuel Macron, 39 anos, foi eleito neste domingo presidente da França, evitando que esta potência econômica mundial caísse nas mãos da adversária de extrema-direita, Marine Le Pen. Com 65,5% a 66,1% dos votos contra 33,9% a 34,5% de Marine, segundo estimativas de institutos independentes, o ex-banqueiro substituirá o socialista François Hollande, que se recusou a disputar a reeleição por falta de apoio popular e de quem foi ministro da Economia. A abstenção no segundo turno teria variado entre 25,3% e 27%, segundo estimativas.

Na esplanada do Museu do Louvre, centro de Paris, com bandeiras da França nas mãos, milhares de pessoas comemoraram a vitória de Macron. Segundo fontes do Palácio do Eliseu, o presidente em fim de mandato e vários membros do governo Hollande também se alegraram com a vitória do centrista, batendo palmas ao saberem do resultado.

Macron será o presidente mais jovem da história da França, mais jovem até mesmo que Louis-Napoléon Bonaparte, que tinha 40 anos quando foi eleito em 1848, e um dos mais jovens do mundo. Ele é casado com Brigitte Trogneux, sua ex-professora, 24 anos mais velha que ele, e presença constante na campanha presidencial.

O novo presidente vai governar uma França dividida politicamente entre zonas urbanas (privilegiadas e reformistas) e as despossuídas (tentadas pelos extremos) e terá outros importantes desafios, como o desemprego endêmico de 10%, a luta antiterrorista e a crise da União Europeia (UE).

Após o anúncio de sua vitória, Macron discursou, afirmando que "combaterá as divisões", que está consciente "da raiva, da ansiedade e das dúvidas" dos franceses e que trabalhará para "reconstruir a relação entre a Europa e os cidadãos".

Ainda que Marine Le Pen, 48 anos, tenha perdido por ampla margem, esta não foi uma derrota absoluta para ela nem para seu partido, a Frente Nacional (FN), que convenceu 34% do eleitorado com promessas contra a imigração e a zona do euro. Após o resultado, ela desejou sucesso a Macron, lembrando-lhe de que estará "à frente do combate" nas eleições legislativas de junho e comemorou o resultado histórico obtido por seu partido.

POLÍTICA EXTERNA
O jovem Emmanuel Macron, presidente de um país que tem armas nucleares e membro permanente do Conselho de Segurança da ONU, entrará no restrito clube das principais lideranças mundiais sem uma experiência internacional de fato, em um contexto de conflitos e tensões em todo planeta.

Depois de uma ascensão meteórica, ele terá de lidar com uma agenda internacional que inclui enfrentar as consequências do Brexit, a crise migratória e a guerra da Síria. Os primeiros encontros mundiais de alto nível – o da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), da cúpula do G7, da cúpula europeia e a reunião do G20 – já estão marcados.

O centrista recebeu o apoio da chanceler alemã, Angela Merkel; do presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker; do ex-presidente americano Barack Obama; e até o ex-ministro grego das Finanças, Yanis Varoufakis, uma das referências da esquerda radical na Europa.

Sobre a Rússia de Vladimir Putin, Macron manteve uma distância segura, em sintonia com a linha europeia, e prometeu um "diálogo exigente" com Moscou - em particular no que diz respeito à guerra na Síria e à crise na Ucrânia. Macron prometeu que a luta antiterrorista será uma de suas prioridades e se disse determinado a manter uma "colaboração forte" com Washington, apesar da imprevisibilidade do presidente Donald Trump.

O ex-ministro da Economia não antecipou, porém, qualquer proposta nova em matéria internacional. Suas posições se inscrevem na continuidade da Política Externa de seu predecessor, "trabalhando no âmbito das alianças". Em relação à América Latina, Macron tampouco mostrou uma visão particular.

FUTURO
Em apenas um ano, desde que fundou o movimento de centro Em Marcha!, Macron abriu caminho em um país onde os dois grandes partidos tradicionais de esquerda e direita se alternavam no poder há meio século.

Superou-os no primeiro turno com um programa europeísta e liberal em temas econômicos e sociais. Foi para o segundo turno com uma vantagem cômoda nas pesquisas, reforçada no debate com sua adversária, mas isto não impediu que levasse um susto de última hora, com um ataque maciço de hackers cuja origem é desconhecida e é investigado pela justiça francesa. Para o mundo, estas eleições foram um termômetro para mensurar a força dos populistas e tomar o pulso da UE, após a vitória do Brexit no Reino Unido.

A aposta política de Macron foi um sucesso, mas o passo seguinte é uma incógnita. Após eleger presidente, em junho os franceses vão votar em legislativas, dominadas pela incerteza. O baque político da direita e dos socialistas no primeiro turno e o avanço da extrema direita no segundo turno geram uma dúvida: Macron será capaz de conseguir uma maioria parlamentar e evitar uma coabitação complicada apesar de não dispor da máquina de um partido tradicional?

Marine Le Pen pode eleger muitos mais deputados dos que tem atualmente, com sua campanha anti-UE, contra a globalização, os imigrantes ilegais e as elites em um país corroído pelo desemprego e traumatizado pela onda de atentados extremistas.

A vitória deste homem com cara de bom moço, formado nas escolas da elite francesas, encerra uma campanha eleitoral repleta de sobressaltos, na qual os imbróglios judiciais ofuscaram durante um bom tempo os temas de fundo, somando-se ao cansaço de uma cidadania desencantada com os políticos.

Mundo reage à vitória de ex-ministro
Chefes de estados e de governos de todo o mundo congratularam o novo presidente francês. O presidente Michel Temer publicou dois tuítes cumprimentando Macron. "Felicito @EmmanuelMacron pela vitória nas eleições para Presidente da França", destacou, prosseguindo: "Brasil e França continuarão a trabalhar juntos em favor da democracia, dos direitos humanos, do desenvolvimento, da integração e da paz".

O americano Donald Trump, que apoiou Marine Le Pen, também usou a rede social para saudar Macron pela "grande vitória" deste domingo e se disse ansioso "por trabalhar com ele".

O porta-voz da chanceler alemã, Angela Merkel, qualificou a vitória de Macron de uma "vitória para uma Europa forte e unida". "Felicidades, @EmmanuelMacron. Sua vitória é uma vitória para uma Europa forte e unida e para a amizade franco-alemã", publicou Steffen Seibert, em alemão e francês, no Twitter.

A primeira-ministra britânica, Theresa May, saudou o novo presidente francês através de um comunicado de Downing Street. "A primeira-ministra saúda sinceramente o presidente eleito Macron por seu êxito nas eleições", destacou um porta-voz, sublinhando que a França é um dos "aliados mais próximos" da Grã-Bretanha.

O presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, também parabenizou o novo presidente no Twitter, afirmando que os franceses elegeram "um futuro europeu". O presidente do Conselho Europeu, Donald Tusk, elogiou a decisão dos franceses a favor da "liberdade, a igualdade e a fraternidade". (AFP)

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