São Paulo - O presidente egípcio, Mohamed Mursi, anulou ontem uma declaração constitucional que o Exército expediu dias antes de sua eleição, que garantiria amplos poderes aos militares.
''O presidente decidiu anular a declaração constitucional adotada em 17 de junho pelo CSFA (Conselho Supremo das Forças Armadas), que dirigia então o país e no qual se apropriava do poder legislativo'', afirmou o porta-voz Yaser Ali em um discurso exibido pela TV pública.
Ele também colocou na reserva o marechal Hussein Tantawi, ministro da Defesa, e o chefe do Estado-Maior do Exército Sami Anan, de acordo com a agência oficial Mena. O novo ministro da Defesa é Abdel Fattah al-Sissi, chefe dos serviços de inteligência militares.
Mursi anunciou ainda o juiz Mahmud Mekki como seu vice-presidente. Este é apenas o segundo vice-presidente egípcio em 30 anos.
O ex-ditador Hosni Mubarak nunca havia nomeado um vice-presidente até a revolta popular que o derrubou em fevereiro de 2011, durante a qual ele nomeou o chefe dos serviços de inteligência Omar Suleiman para o posto.

Presidência


Mursi assumiu oficialmente a Presidência do Egito no dia 30 de junho. Primeiro presidente democrático do país árabe, o ex-líder do braço político do grupo islâmico Irmandade Muçulmana prometeu manter a ordem constitucional e os interesses do povo egípcio.
Em discurso de posse, fez referência a Deus e jurou manter o sistema republicano e disse respeitar o Tribunal Constitucional, apesar de ter contestado a decisão que dissolveu o Parlamento, dias antes da eleição presidencial.
''Respeito e valorizo o Tribunal Constitucional e seus veredictos. Todos temos interesse em que (o Tribunal) deve permanecer independente, forte, efetivo, sem que ninguém tenha influência sobre ele, uma instituição livre em um país livre''.
''Hoje, o povo egípcio estabeleceu as bases de uma vida nova, de uma liberdade total, de uma verdadeira democracia'', afirmou no discurso.
Mursi derrotou o último primeiro-ministro de Mubarak, Ahmed Shafiq, na eleição presidencial, que teve o segundo turno celebrado nos últimos dias 16 e 17. O islamita recebeu 51,73% dos votos.
Dissolução do parlamento
Em 14 de junho, dois dias antes das eleições no país, o Tribunal Supremo do Egito decidiu que a Câmara Baixa do Parlamento egípcio seria dissolvida e novas eleições teriam que ser realizadas.
A decisão da Justiça se basearia em uma regra segundo a qual um terço das cadeiras do Parlamento deve ser ocupado por candidatos independentes, que não foi respeitada e tornaria o Parlamento ''parcialmente inconstitucional'', de acordo com a agência oficial de notícias Mena. Com base no descumprimento da regra, a Justiça anunciou que todo o Parlamento deveria ser dissolvido.

Sinai


Nove pessoas (seis ativistas e três militares) morreram em um confronto ontem de manhã no norte da Península do Sinai, onde o Exército egípcio realiza uma operação contra o ''terrorismo'', segundo a televisão estatal egípcia.
Uma fonte da segurança confirmou que os combates ocorreram próximo ao povoado de Al-Gura, no norte do Sinai, contra homens armados com lança-foguetes, granadas e armas automáticas.
O Exército e a Polícia egípcia enviaram diversos reforços para esta região, depois do ataque que há uma semana custou a vida de 16 guardas fronteiriços egípcios, que foi atribuído a ''terroristas islâmicos''.
As autoridades do Egito prometeram recuperar o controle desta região instável, próxima a Israel e ao enclave palestino de Gaza, que sofre com o aumento da insegurança desde a queda do presidente Hosni Mubarak, em fevereiro de 2011.

(Com France Presse)
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