Paris- No extremo sul do planeta, na Antártida, o buraco na camada de ozônio nunca esteve tão grande. No extremo norte, no Ártico, o derretimento das calotas polares já reduziu a cobertura de gelo em 15% nos últimos 29 anos. Nesses dois retratos da devastação ambiental provocada pelo homem, cientistas de todo o mundo trabalharão até 2009 em 209 projetos de estudos que integram o 4º Ano Polar - o maior esforço científico concentrado de pesquisa em ambientes hostis.
O lançamento do Ano Polar Internacional ocorreu ontem, em Paris, quatro semanas após a divulgação do novo relatório do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), também na capital francesa. Entre os presentes à cerimônia, pesquisadores e autoridades políticas, como o príncipe de Mônaco, Albert II, em uma nova prova da preocupação internacional em relação ao aquecimento global. Albert saudou os estudiosos e resumiu, em palavras de leigo, o pensamento dos especialistas na sala: ''O risco do aquecimento global é alto demais. E está ficando pior''.
Os indicadores de que o efeito estufa está afetando a biodiversidade do planeta já haviam sido divulgados no mês passado pelos pesquisadores do IPCC: entre 2090 e 2100, se a concentração de CO2 na atmosfera não for reduzida, a temperatura média na Terra deverá subir 3 C.
O Ano Polar dará sequência às investigações sobre os efeitos dessa mudança climática em dois dos mais sensíveis ecossistemas, o antártico e o ártico. Ao todo, 209 projetos científicos, de diferentes áreas de conhecimento - biologia, física, química, matemática, antropologia e sociologia, entre outras -, envolverão 10 mil estudiosos, conforme o Conselho Internacional para a Ciência (ICSU) e a Organização Meteorológica Mundial (OMM), promotores do evento.
Os cientistas que vão a campo encontrarão cenários absolutamente diversos dos investigados há 50 anos, quando ocorreu o último Ano Polar (os anteriores foram em 1882-1883, 1932-1933 e 1957-1958). Com base em novas tecnologias de pesquisa, os estudiosos diagnosticaram as ameaças que pairam sobre os pólos, cujos efeitos são globais. Redução da camada de ozônio, aumento da poluição e desintegração parcial das calotas polares são os mais conhecidos. Os danos afetam primeiro as regiões polares, que concentram as linhas do campo magnético do planeta.
Na Antártida, 8% da cobertura de gelo desapareceu em menos de três décadas. No Ártico, imagens de satélite e observações locais indicam que desde 1978 o tamanho dos bancos de gelo foi reduzido em 15% de sua superfície e em 40% de sua espessura. Nesse ritmo, a cobertura de gelo sobre o oceano resistirá 70 anos.
O alerta não é apenas ambiental, mas antropológico. Em torno do Ártico, habitam 4 milhões de pessoas que sofrerão de forma mais imediata o impacto das alterações. ''Por que estamos preocupados? Porque o sistema polar envolve muito mais que camadas de gelo. As implicações climáticas terão efeitos humanos globais'', alertou David Carlson, diretor do Programa do Ano Polar.

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