''Lust, Caution'', melodrama que mescla sexo, amor e política na China sob domínio japonês em 1942, ganhou o Leão de Ouro de melhor filme do 64º Festival de Veneza, encerrado sábado à noite em cerimônia transmitida ao vivo pela tevê para toda a Europa. É o terceiro ano consecutivo que o cinema chinês vence a mostra italiana, que não esconde sua predileção nem sempre rigorosa por títulos do extremo oriente. ''Luxúria, Atenção'' ganhou ainda o prêmio de melhor fotografia (Rodrigo Prieto).
O diretor Ang Lee, há dois anos aclamado em Veneza pelo western gay
''O Segredo de Brokeback Mountain'', agradeceu dizendo em chave freudiana que ''este é um Leão selvagem, não domesticado, que me amedronta como o filme que realizei. Com ele explorei todos os pontos obscuros do inconsciente''. E aos jurados: ''Vocês são os sete samurais que me salvaram dos abismos que visitei durante a filmagem''.
A decisão do júri excepcionalmente formado este ano só por cineastas surpreendeu a todos. Na sala de coletivas, centenas de jornalistas que assistiam a cerimônia pelo telão receberam o resultado com desaprovação e vaias - não para o filme de Lee, que todos consideram de muito bom nível como quase tudo que ele faz (''Hulk'' foi acidente de percurso), mas pela escolha que desconsiderou trabalhos mais significativos.
Na vigília, horas antes da premiação, os prognósticos apontavam na direção de outros títulos de maior substância. Como o russo ''12'', que explodiu aqui no último dia da competição com enorme força, ou o francês ''La Graine et le Mulet'', ou ainda o experimental e corajoso ''Redacted'', claramente anti-Bush.
Os três afinal também premiados: o primeiro com um improvisado Leão Especial de última hora, entregue ao diretor Nikita Mikhalkov, dedicado ''à grande maestria, humanidade, emoção e complexidade de sua obra''. O segundo, dividindo com ''I'm Not There'', de Todd Haynes, o Prêmio Especial do Júri (claro indício de fratura entre os jurados). E o terceiro, Leão de Prata de melhor direção, para Brian De Palma.
Vaias e unanimidade - As primeiras vaias da noite foram para a decisão de premiar Brad Pitt como melhor ator por ''O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford''. Neste segmento foram preteridos os brilhantes russos de ''12'', além de Jude Law e Michael Caine em ''Sleuth'', Tony Leung no filme de Ang Lee, o favorito Tommy Lee Jones e até George Clooney como o advogado em crise em ''Michael Clayton''.
Unanimidade para a melhor atriz Cate Blanchett em sua refinada androginia, um dos sete intérpretes de Bob Dylan em ''I'm Not There''. Ausente, quem recebeu o prêmio por ela foi o cowboy gay de ''Brokeback'', Heath Ledger, irrepreensivelmente mau vestido. Indiscutível também o prêmio de melhor roteiro, escrito pelo irlandês Paul Laverty para a direção de Ken Loach em ''It's a Free World'', e por ele dedicado ''a todos os trabalhadores, legais e ilegais''.
O tradicional prêmio Marcello Mastroianni para revelação de ator ou atriz foi para Hafsia Hersi. Provavelmente mais pela dança do ventre que executa com explosiva carga erótica em ''La Graine et le Mulet'' do que por sua interpretação. Na coletiva após a cerimônia, o presidente do júri, o chinês Zhang Yimou, justificou a decisão afirmando: ''Premiamos Ang Lee outra vez pela qualidade de seu filme, sem pensar no passado. É claro que não existem prêmios perfeitos e nem um julgamento que possa contemplar simultaneamente a todos, mas com certeza tínhamos muitos títulos de qualidade para assinalar''. Não convenceu.

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