Andijan continua isolada do mundo
PUBLICAÇÃO
domingo, 15 de maio de 2005
France Presse 
Andijan, Uzbequistão - A cidade uzbeque de Andijan estava praticamente isolada do mundo ontem, cercada por um cordão de segurança de blindados e caminhões militares, três dias depois da insurreição à qual se seguiu uma repressão sangrenta das autoridades, que deixou dezenas de mortos.
Vários moradores desta grande cidade do vale de Ferghana (leste) continuavam procurando os corpos de seus entes queridos, enquanto o necrotério e os hospitais eram vigiados cuidadosamente por militares e estavam praticamente inacessíveis.
Não foi possível estabelecer um balanço preciso destes fatos, já que as autoridades intervieram para que as informações não circulassem.
A maioria dos jornalistas presentes no local foi expulsa.
Testemunhas diretas, como um encarregado da organização de direitos humanos Apellatsia, Luftulo Shamssutdinov, declararam ter visto pelo menos 300 corpos, um número 10 vezes maior ao anunciado pelas autoridades.
Já diretor da Organização Não-Governamental Animokur, Gulbahor Turdiyeva, informou que pelo menos 600 pessoas morreram na repressão militar dos protestos. O diretor da Animokur afirmou ontem que cerca de 500 corpos estavam no sábado em uma das escolas da localidade e os outros 100 em um instituto em construção nas redondezas de Andijan.
Um policial que pediu para ter sua identidade preservada disse ter visto ''dezenas de mortos'' no necrotério em declarações à AFP que, por sua vez, contou sessenta corpos entre sexta e sábado.
A insurreição foi lançada para protestar contra o processo em curso de 23 pessoas acusadas de propagar idéias islâmicas radicais, tentando desta forma obter a libertação destes prisioneiros. Os insurgentes tomaram na noite de quinta-feira uma prisão de alta segurança antes de se apoderarem da sede da administração regional, recebendo apoio de milhares de pessoas.
As forças de ordem reprimiram estas manifestações abrindo fogo contra a multidão.
O presidente uzbeque Islam Karimov acusou os extremistas islâmicos de estarem por trás dos protestos e negou ter dado ordem para que se disparasse contra a multidão.
A Organização Não-Governamental americana Human Rights Watch acusou ontem as autoridades uzbeques de terem disparado contra os manifestantes com o argumento de ''guerra contra o terrorismo''.
''Não se trata de terrorismo, mas de pessoas que se expressam contra a pobreza e a repressão'', disse Holly Cartner, encarregada da Ásia Central desta organização de defesa dos direitos humanos.
A Organização para a Segurança e a Cooperação na Europa (Osce) instou também a direção uzbeque a ''levar em conta o direito das pessoas que participaram dos distúrbios''.
Na sede da administração do poder regional, superprotegida por soldados e tanques, uma fumaça negra saía do edifício onde foi declarado incêndio na tarde de sábado.
''Estamos em guerra'', afirmou uma mulher, dando mostras da extrema tensão que o país vive, enquanto tentava ligar da recepção de um hotel.


