Um bloqueio de estradas iniciado por plantadores de coca – os cocaleros – que pedem a renúncia do presidente Hugo Banzer agravou-se ontem ao deixar intransitável por várias horas a rodovia principal que liga o leste ao centro do país, em meio a uma escalada de protestos que ameaça desestabilizar o governo.
Na região de Chapare, a 580 km a sudeste, os cocaleros que obedecem ao comando do deputado Evo Morales realizam desde quarta-feira ‘‘bloqueios relâmpago’’ na estrada entre Santa Cruz e Cochabamba, duas das três mais importantes cidades do país.
O presidente da entidade que congrega os empresários de Santa Cruz, Jorge Valdés, ameaçou tomar medidas de força para desocupar a rodovia. ‘‘Se os cocaleros querem mortos, eles os terão’’, disse.
Os protestos, que começaram há 17 dias com o início de uma marcha de 400 km liderada por Morales, estenderam-se pelo Estado de Tarija, no sul do país – onde hoje houve uma greve de 24 horas para exigir a construção de uma estrada.
Morales quer o fim da política governamental de erradicação das plantações de coca; o fim da economia de mercado; e a ‘‘reestatização’’ das empresas privatizadas pelo governo anterior. Por não ser atendido, concentrou seu descontentamento no ‘‘slogan’’ que vem sendo repetido com cada vez maior frequência: ‘‘fora Banzer’’.
O governo afirma que quarta-feira os cocaleros abriram fogo contra um helicóptero antidroga em Chapare, incidente que não deixou vítimas.
Ao mesmo tempo, em La Paz, dois deputados – Victor Miranda, do Movimento Consciência da Pátria (CONDEPA), e Félix Sánchez, do Movimento Bolívia Livre (MBL), se juntaram a seus cinco colegas em greve de fome que exigem um diálogo entre o governo de Banzer e os dirigentes cocaleros, enquanto cresce a repressão aos manifestantes que chegam à capital boliviana.
Diante da onda de conflitos, o governo confirmou ontem que está disposto a ‘‘flexibilizar’’ o modelo de economia de mercado, como exigem alguns sindicatos e partidos políticos, e anunciou que perdoará as dívidas contraídas junto a bancos estatais por 20.000 camponeses e indígenas que fizeram empréstimos não superiores a US$ 5.000.
Observadores mostram-se preocupados com a situação, duvidando que as medidas agora anunciadas possam conter os protestos. O temor é o de que a crise se agrave, pondo em perigo inclusive o próprio governo. O presidente Hugo Banzer já enfatizou que não renuncia, apesar de toda a pressão.

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