Fajula - De uma fábrica cheia de ratos, os soldados observam os carros crivados de balas e as casas abandonadas, fumando nervosamente e com as mãos tensas em seus fuzis M-16.
O barulho das balas de Kalachnikov provoca brincadeiras sobre os filmes de Kung Fu, mas basta uma pequena movimentação para que os treze soldados comecem a atirar contra os rebeldes que se escondem nas casas de cimento do outro lado da rua.
Os soldados estão posicionados em várias fábricas no limite com as áreas residenciais da cidade rebelde sunita de Faluja, a 50 km de Bagdá.
Eles se sentem ao mesmo tempo excitados e aterrorizados com a idéia de morrer na ação, que é a mais dura desde a conquista de Bagdá, há um ano, durante a qual viram cair vários companheiros.
O tenente Luke Pernotto conduz seus homens pelas ruelas cortadas por línguas negras, acompanhados por franco-atiradores escondidos na cidade fantasma, com seus minaretes, suas casas de dois andares e fábricas. Está sempre pronto para disparar, mas perturbado pela lembrança de um de seus companheiros, morto há um ano em Bagdá. ''Triste aniversário'', desabafa, consciente da vulnerabilidade de seus homens.
O cabo Michael Goerlinger leva consigo as botas de um companheiro que caiu nesta semana sob o fogo de um franco-atirador. Outro leva suas insígnias, uma barra metálica que simboliza a patente de cabo e um terceiro, a correia verde de seu capacete.
Por alguns momentos, o cabo Goerlinger, o rosto sujo de barro, pensa no amigo atingido na cabeça por um tiro. ''Tudo está revirado na minha cabeça. Nada mais nos enoja. Sofreremos as consequências depois'', diz, murmurando. Ele não quer pensar no futuro, quando Faluja será tomada e os combates acabarão. Ele acusa os estrangeiros: ''São os sírios, os combatentes estrangeiros. Vêm para cá''.
Alguns sabem que a saída continua incerta, mesmo com os mais de dois mil marines envolvidos na operação. ''Tentamos adivinhar a quem darão a cidade quando a batalha tiver terminado. Ninguém pode tomar o terreno. As forças da segurança iraquiana se equiparam aos caras maus'', diz o sargento-em-chefe Ken Jones, nos marines há mais de 20 anos. Ele fala das informações sobre a cumplicidade entre a polícia iraquiana e as forças de defesa civil e a guerrilha. ''Após a operação, os soldados poderiam ocupar a cidade'', diz.
Os soldados não dorminam mais de três horas por noite nos últimos três dias, após procurar um lugar limpo, longe dos ratos e dos detritos desta fábrica de batatas fritas e guloseimas. Um tanque lança um obus contra um minarete no qual estava posicionado um franco-atirador. Alguns soldados aplaudem. Outros dizem, enfurecidos: ''Matem todos os 'haji''', gíria para iraquianos entre os militares americanos. Alguns lembram com excitação de um corpo devorado na rua por cães selvagens. Pouco antes do amanhecer, cantam aos gritos uma canção de rock pesado para irritar os rebeldes, escondidos na escuridão. ''Não há regras com estes caras. Não há forma civilizada de combater'', diz o cabo Ryan Dewey, de 20 anos.
Depois da raiva, vem a ansiedade de que, no fim, tudo termine da melhor maneira, apesar do sangue derramado. ''Nós temos que tomar a cidade, mas o que acontecerá depois? Meu maior medo é que o exército se retire e que a mesma m... recomece'', desabafa o sargento Wallace Mains, de 35 anos. Horas mais tarde, sua posição, próxima a um silo é bombardeada por foguetes e morteiros. Um estilhaço de obus corta o ar. Um soldado fica ferido, mas espera que apesar de tudo sua ação em Faluja tenha algum sentido.

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