Americanos usam chats para opinar
Agência Estado
Desde o primeiro dia desta farsa, declarei meu apoio ao retorno desta pobre criança a seu pai. A lei, conforme interpretação da Suprema Corte dos Estados Unidos, impõe que seja assim e senti-me aliviado quando, na semana passada, o nosso governo finalmente concordou com a lei. Agora, temos um novo adiamento provocado por intrusos que estão usando o menino para promover sua agenda política. Considero particularmente odioso que esses intrusos estejam destruindo as vidas do pai e do filho enquanto eles mesmos não arriscam nada.
Esta mensagem, colocada ontem anonimamente num chat eletrônico da America On Line, certamente não agradou os exilados cubanos em Miami e seus aliados republicanos no Congresso dos Estados Unidos, que nas últimas seis semanas transformaram o menino Elián Gonzalez num símbolo de sua campanha de mais de 40 anos contra o regime de Fidel Castro.
Mas ela é típica entre os americanos que se manifestaram sobre o assunto nos últimos dias nos chats da Internet e indica que o uso político da saga de Elián, nos EUA e em Cuba, é repelida pela opinião pública e poderá isolar a comunidade cubana num país que tem dado crescentes sinais de disposição para normalizar as relações com Havana.
Para Lilian Pubillones Nolan, cubana americana e especialista em relações Cuba-EUA no Diálogo Interamericano, a impopularidade entre os americanos da campanha da comunidade exilada para impedir o retorno de Elián a Cuba não inibirá os líderes dos grupos anticastristas de Little Havana nem a direita republicana que abraçou sua causa no Congresso.
Este episódio é uma tragédia, pois a política tomou conta de um caso muito simples e que poderia ter sido resolvido nos primeiros dias, disse ela à Agência Estado. A comunidade cubana age frequentemente de forma pouco racional, levada pelas emoções, e este caso é especialmente trágico não só porque envolve um menino de seis anos que não teve até agora sequer chance de chorar a morte de sua mãe, mas porque muitos cubanos que vivem hoje nos Estados Unidos vieram para cá invocando exatamente o princípio da reunificação com suas famílias, que o governo americano usou ao decidir que a custódia de Elián cabe a seu pai.
Um de quatro sobreviventes de um grupo de cubanos que tentou chegar aos EUA, Elián, de seis anos, foi recolhido pela guarda costeira americana numa câmara de ar, no dia 25 de novembro passado, e entregue à guarda de parentes de seu pai, que era separado da mãe e vive em Cuba. A mãe morreu na travessia. Os avós maternos e paternos de Elián vivem em Cuba e também querem o menino de volta. O presidente Fidel Castro transformou a repatriação de Elián como bandeira nacional.
Na sexta-feira, o deputado Dan Burton, de Indiana, intimou Elián a depor perante uma comissão do Congresso no mês que vem, numa manobra para impedir a execução de decisão do Serviço de Imigração e Naturalização (INS) dos EUA, na semana passada, segundo a qual Elián deve ser entregue a seu pai, que vive em Cuba.
O senador Jesse Helms, da Carolina do Norte, co-autor com Burton de uma lei de 1996 que ampliou o embargo econômico americano a Cuba e tornou mais difícil sua suspensão, tem um projeto de lei pronto para dar a cidadania americana a Elián quando o Congresso retornar do recesso do fim do ano, no fim deste mês. Eu sou o pai de Elián e a imigração (INS) disse que sou a única pessoa que pode falar por ele, disse Juan Miguel Gonzalez, que é porteiro de um hotel de turismo em Varadero.
Por que adiar a volta do meu filho?, perguntou ele, referindo-se à manobra de Burton. Quem é ele? Ele não é nada, eu sou o pai.
A iniciativa dos líderes republicanos tornou incerto o cumprimento da ordem do INS de repatriação de Elián, cujo prazo de cumprimento é a próxima sexta-feira.
Antes disso, uma juíza federal em Miami deve se pronunciar sobre o pedido de custódia do menino apresentado por seu tio-avô, Lázaro González. Na opinião de especialistas em imigração e grupos de defesa de crianças, a justiça confirmará a decisão do INS, que reconheceu o direito de de custódia do pai do menino. Para o advogado David Levy, presidente do Conselho de Defesa das Crianças, em Washington, a tentativa dos parentes de Elián em Miami de impedir que ele volte à custódia de seu pai, em Cuba, não tem nenhuma base legal.
Os líderes da comunidade cubana em Miami abandonaram no fim de semana planos para perturbar e até mesmo paralisar as operações do aeroporto da cidade esta semana com atos de desobediência civil em protesto à decisão tomada pelo Serviço de Imigração e Naturalização dos Estados Unidos (INS), na semana passada, de mandar Elián de volta para Cuba.
Esta é uma situação volátil e difícil e nós precisamos mantê-la o máximo possível fora do processo político e dentro dos canais legais estabelecidos, afirmou o presidente Bill Clinton, depois de ser informado sobre a manobra de Burton para adiar a volta de Elián a Cuba.
Politicamente, não está claro o que os republicanos têm a ganhar com sua campanha para anular a ordem do INS. O governador da Flórida, Jeb Bush, foi eleito com o apoio da comunidade cubana e já se pronunciou a favor da permanência do menino.
Ele é irmão do governador do Texas e candidato favorito dos republicanos à Casa Branca, George W. Bush. Ter seu irmão no controle da máquina política da Flórida da a George W. uma vantagem importante na busca dos votos do estado, que é o quarto maior colégio eleitoral dos EUA na dispusta presidencial de 7 de novembro.
Mas o interesse político de George W., hoje, é distanciar-se da direita republicana representada por líderes como Burton e Helms, que são impopulares entre os americanos. Ele evitou até agora envolver-se no caso Elián, talvez porque tema que isso prejudicará a imagem centrista que quer projetar em sua campanha à presidência, sem acrescentar nada em termos eleitorais, pois suas chances de ganhar na Flórida já eram excelentes antes deste episódio.
A vantagem republicana na Flórida liberou também Clinton e os dois candidatos democratas das pressões da comunidade cubana e fez com que assumissem uma posição mais alinhada com a opinião majoritária no país.
O vice-presidente Albert Gore e o ex-senador Bill Bradley dizem que apoiarão a decisão que a justiça tomar. Fidel, como sempre, ganhará em qualquer hipótese, disse Pubbillones Nolan. Se o Executivo desafiar o Legislativo e executar a ordem de repatriação do menino, ele cantará vitória; se o caso de prolongar e o Congresso der a cidadania americana a Elián, ele ganhará uma nova bandeira para alimentar sua campanha antiamericana que usa há mais de 40 anos para manter-se no poder.Opinião pública repele uso político da saga do garoto Elián Gonzalez, enquanto uma série de manobras tenta retardar sua volta para Cuba
France PresseNA BERLINDA Elián Gonzalez é carregado nos ombros pelo tio, Lázaro Gonzalez, segurando as bandeiras cubana e americana, durante manifestação em Litte Havana





