Ameaça ressurge no coração do continente
Gilles Lapouge
Agência Estado
De Paris
No coração desta Europa tão humanista e tão enamorada dos direitos humanos, eis que surge um patinho feio, um país que confia ardentemente em um líder de extrema direita, o populista Joerg Haider, cujo partido, o FPO, reuniu 26,7% de votos nas eleições legislativas de outubro de 1999.
Teoricamente, os dois grandes partidos burgueses que governam o país há cinquenta anos, os socialistas (SPO) e os conservadores (OVP) poderiam continuar a se aliar e, então, conservar o poder. Mas eis o que acontece: hoje, os dirigentes socialistas e os conservadores se detestam. Situação bloqueada. Só há uma saída: uma coalizão entre a direita (os conservadores) e os populistas.
Um homem tornou-se então o mestre do jogo (mesmo prometendo que não vai cobiçar o posto de chanceler): o populista Joerg Haider, 50 anos, demagogo, com um certo carisma, de aparência não repugnante. Mas ele se torna repugnante, quando se ouve sua fala. Em 1995, ele evocou os campos de correção dos nazistas.
Perguntaram-lhe que campos eram esses. Ah, não! Ele queria dizer Os campos de concentração. Em seguida, ele clamou: Os SS faziam parte da Wermacht e com esse título mereciam respeito. Em uma outra vez, a política de emprego de Hitler arrancou-lhe gritos de êxtase.
Evidentemente, agora que o poder embalsama suas narinas, ele corrige a mira. Tudo isso foi pecado da juventude etc. Todavia, observe-se que ele já tinha 45 anos. E de qualquer maneira, a celebração da infâmia não se apaga. A cicatriz é indelével.
Além da questão Haider, existe a questão da Áustria: trata-se de um país magnífico, nas montanhas, saudável, com mulheres bonitas, homens robustos, com calças de couro, casacos de lã impermeável, Wolfgang, Amadeus, Mozart, muito café, e esse país vota maciçamente em Haider! E a direita moderada (os conservadores) não vê mal algum em se aliar a um neonazista!
É verdade que esse país prospera (um dos níveis de vida mais alto), já nos foi alertado: quando Kurt Waldheim, presidente da República, foi condenado pelo exterior por suas relações com os nazistas, há 14 anos, os austríacos não entenderam por que se fazia tanto alarde por tão pouca coisa.
Hoje, caso o partido populista de Haider chegue ao poder, a Europa irá mais longe do que as advertências ou que os resmungos? Dificilmente, uma vez que a Áustria faz parte da Europa (é verdade que sem entusiasmo) e ocupa uma posição estratégica no centro do continente.
Ao contrário, como a União Européia poderá se acomodar com um Estado que preconiza a xenofobia, e até mesmo o racismo, contrários à Constituição da Europa (direitos humanos etc.)? Aí se encontra uma das fragilidades da União Européia: basta que um país faça uma virada brusca e violenta para que o consenso que une os quinze europeus fracasse. O que fazer então? Demandar que o intruso deixe a Europa, e reintegrá-lo depois, quando novas eleições apagarem a mancha? Mas o que pensar da continuidade, da coerência de Bruxelas?
Se se quiser amedrontar, é o caso de evocar a Alemanha. Eis um país em que a classe política jamais alimentou qualquer cumplicidade com os nazistas alucinados (há inúmeros neonazistas muito perigosos, na Alemanha, mas marginais, desempregados, motociclistas...). Mas à luz da Áustria, pode-se imaginar um cenário/catástrofe: na Alemanha, um dos dois grandes partidos, o CDU (democrata-cristãos) está difamado com o escândalo Helmut Kohl. Ora, o CDU desempenha um papel de unir tendências muito variadas dos conservadores, dos cristãos, dos burgueses, dos liberais. Na hipótese do CDU não sobreviver ao escândalo Kohl, esse partido unificador vai se esfiapar e alguns elementos resultantes da divisão do CDU correrão o risco, em sua amargura, de ceder às suas tendências nacionalistas, extremistas, e até piores.
O jornal de Munique, Suddentsche Zeitung, escreveu: Certamente, não existe um Haider alemão, mas pode surgir um a qualquer momento, talvez até nas fileiras dos homens políticos hoje estabelecidos. Vê-se, no momento, os caminhos tenebrosos em que corremos o risco de ser conduzidos pelo descrédito que, a partir de agora, atinge a classe política em muitos países ocidentais.





