AMEAÇA ATÔMICA
Paulo Sotero
Agência Estado,
De Washington
Falta de credibilidade do país gerada com a não-ratificação do CTBT deve frustrar outros objetivos da agenda externa
Para analistas, a Casa Branca não se preparou para o contra-ataque de políticos que sabidamente aguardavam uma oportunidade para punir Clinton depois de ter fracassado em sua tentativa de removê-lo da Casa Branca pelo processo de impeachment, por conta do affair Lewinsky
Aliados e rivais dos Estados Unidos uniram-se na semana passada para criticar e condenar a extraordinária decisão de 51 dos 65 senadores republicanos de rejeitar formalmente o Tratado Abrangente de Banimento dos Testes Nucleares (CTBT), na quarta-feira passada, quando podiam simplesmente ter adiado a votação - a solução de compromisso que sessenta deles apoiavam.
Nos EUA, o débâcle foi comparado à recusa do Senado de ratificar o Tratado de Versalhes, em 1920, que preconizava a criação da Liga das Nações, depois da Primeira Guerra Mundial. Com uma agravante: o Tratado de Versalhes foi e continua a ser considerado um dos grandes desastres da diplomacia internacional neste século, enquanto o CTBT era visto como um acordo sólido, ainda que incompleto e falível.
O presidente da França, Jacques Chirac, disse que a derrota do CTBT causará sérios danos à credibilidade dos EUA e à causa do desarmamento nuclear. Na Índia, um dos países com capacidade nuclear que Washington queria atrair para o tratado, Brahma Chellaney, um analista de segurança do Centro de Pesquisa de Políticas, emitiu o atestado de óbito do CTBT. O tratado está morto, deixou de ser um tema e a Índia, agora, pode relaxar.
Outros especialistas em segurança não esconderam sua estupefação diante do que um diplomata americano classificou de uma demonstração de estupidez dos políticos de seu país. O francês Gilles Andreani, um especialista do Centro Internacional de Estudos Estratégicos, em Londres, resumiu sua perplexidade ao Financial Times. Você pergunta aos senadores: os senhores querem um tratado que congelará a superioridade nuclear dos Estados Unidos para sempre?, disse ele. E a maioria diz não.
Apesar das declarações em contrário do líder republicano no Senado, Trent Lott, a verdade é que a decisão dos senadores pouco ou nada teve a ver com os méritos do CTBT como um instrumento para conter a proliferação de armas nucleares, tema de um debate entre os especialistas no assunto. Os senadores deram as costas a meio século de bipartidarismo, a viga mestra da liderança internacional dos EUA durante a guerra fria, para humilhar um presidente que detestam e negar-lhe a possibilidade de melhorar seu modesto legado como líder, realizando a grande prioridade de sua política externa na área da não proliferação de armas de destruição em massa.
Ao fazê-lo, no entanto, levantaram novas dúvidas sobre a disposição dos EUA de, no auge de seu poder econômico e militar, continuarem engajados internacionalmente em termos que levem em consideração não apenas os seus interesses, mas também os do mundo que pretendem liderar. Isso, disseram vários analistas, reduzirá a credibilidade externa do país e a autoridade internacional do presidente Bill Clinton nos 15 meses que lhe restam no poder.
O próprio Clinton sublinhou essas dúvidas na quinta-feira, quando denunciou a rejeição do CTBT como uma manifestação de um partidarismo temerário e de um novo isolacionismo que ameaça o bem estar econômico (e) a segurança nacional dos EUA.
No mínimo, a rejeição do CTBT é mais um sintoma da quebra do consenso interno sobre as responsabilidades internacionais dos EUA no pós-guerra fria e da tensão que o status de superpotência única gera entre o multilateralismo e o unilateralismo como o melhor caminho para o país exercer seu extraordinário poder econômico e militar. Ela expõe, também, a crescente marginalização das questões internacionais no debate político americano, refletida na forte erosão do prestígio e influência do Departamento de Estado nos últimos anos.
Anedóticas ou substantivas, manifestações desse fenômeno se multiplicaram nos últimos anos. No início da sessão legislativa de 1996, apenas 40% dos congressistas tinham passaporte e perto da metade jamais havia viajado para o exterior. Só estive na Europa uma vez e não pretendo voltar, vangloria-se o atual líder da maioria na Câmara, o deputado texano Richard Armey, um economista e ex-professor universitário.
A Comissão de Relações Exteriores do Senado, que já foi considerada um trampolim seguro para políticos que sonham com a Casa Branca, é hoje tão cobiçada pelos senadores como a comissão que faz a supervisão financeira do Distrito de Columbia, a unidade da federação que abriga Washington, a capital do país. Em janeiro de 1997, em seu primeiro discurso como secretária de Estado, Madeleine Albright achou útil justificar a existência do Departamento de Estado dizendo que a diplomacia é necessária porque ajuda a defender os interesses econômicos e garantir os empregos dos americanos.
Esse tipo de argumento, ilustrativo de uma estratégia de subordinação dos interesses e responsabilidades internacionais da superpotência americana aos objetivos da política interna, foi lembrado por simpatizantes do presidente e defensores da ratificação do CTBT para atribuir parte da culpa pelo desastre da semana passada ao próprio Clinton. Por um longo período (de sua presidência), Clinton não prestou nenhuma atenção sustentada à política externa (e) mesmo quando o fez, continuou obcecado com seu impacto na política doméstica, afirmou Tony Judt, diretor do Instituto Remarque, da Universidade de Nova York.
Outros chamaram atenção para a maneira pouco organizada e a falta de uma estratégia clara da Casa Branca para garantir a ratificação do CTBT por maioria de dois terços num Senado que sabidamente aguardava uma oportunidade para punir Clinton depois de ter fracassado em sua tentativa de removê-lo da Casa Branca pelo processo de impeachment, por conta do affair Lewinsky.
Não tendo conseguido o impeachment com a Monica, eles o fizeram agora com o CTBT, disse Gelb, para expressar o temor de que o desgaste da autoridade internacional de Clinton provocado pela rejeição do tratado frustrará os demais objetivos de sua agenda externa, que incluem novos avanços no processo de paz no Oriente Médio e a entrada da China na Organização Mundial de Comércio - um elemento importante para o lançamento da nova rodada de negociações das leis do comércio mundial durante a reunião ministerial da OMC, que os EUA hospederão em Seattle, no início de dezembro.
A propósito, o colapso do CTBT levou The Washington Post, ontem, a pôr em dúvida o sucesso da operação. Sob o título Arrastando-se Rumo a Seatle, o jornal afirmou em seu editorial principal que, com a rejeição do acordo, a credibilidade da América para negociar tratados sofreu e o lançamento de uma nova rodada tornou-se, positivamente, heróica.
Para James Chance, biógrafo de Dean Acheson, o secretário de Estado que resistiu às pressões isolacionistas dos conservadores depois da Segunda Guerra Mundial e concebeu a visão do engajamento americano no mundo que orientaria a diplomacia do país nas quatro décadas seguintes, o envenemento das relações entre o presidente e seus advsersários não basta como explicação. Chance vê na rejeição do CTBT uma volta dos republicanos ao passado. O repertório isolacionista do Congresso republicano nos anos 90 é espantoso, escreveu ele, na última sexta-feira, no New York Times. Na Câmara, eles votaram contra a intervenção militar em Kosovo e a favor do fim do registro para o alistamento militar dos jovens de 18 anos; no Congresso, opõem-se ao pagamento de US$ 1,7 bilhões que nós devemos às Nações Unidas, o que significa que os EUA provavelmente perderão seu voto na Assembléia Geral da ONU no ano que vem; além disso, eles cortaram em 14% o orçamento para atividades ligadas às relações internacionais no ano 2000, recusaram-se a continuar a financiar a execução dos acordos de Wye (entre Israel e a Autoridade Palestina), que são indispensáveis para um acordo de paz no Oriente Médio; e agora puseram em risco a segurança nacional rejeitando um tratado que preservaria a superioridade nuclear americana e ajudaria a conter a proliferação de armas nucleares avançadas.
A esse elenco, Chance poderia ter acrescentado a contribuição dos próprios correligionários democratas de Clinton, que lhe negaram o mandato fast track para negociar acordos comerciais e, junto com muitos de seus correligionários republicanos, mantêm a causa da liberalização comercial na defensiva enquanto fomentam o protecionismo nos setores que interessam aos lobbies mais organizados da economia americana.
O fato de os democratas terem ajudado a atar as mãos de Clinton - e de o próprio presidente ter agido mais de uma vez de forma unilateral, seja para castigar Saddam Hussein, seja para impor tarifas sobre as importações de aço do Japão - leva alguns estudiosos da política externa americana a discordar do diagnóstico de Chance. Não creio que o Partido Republicano foi ou seja hoje isolacionista, disse Micahel Mandelbaum, do Council of Foreign Relations. O que está se manifestando é um forte impulso unilateralista, o que é diferente ( do isolacionismo), explicou ele. Ele não se opõe ao engajamento externo, apenas contém a mensagem: não amarre nossas mãos.
Para Jeffrey Garten, diretor da Escola de Administração da Universidade de Yale que ajudou a desenvolver a diplomacia econômica de Clinton como alto funcionário do Departamento do Comércio, a internacionalização da economia americana nos últimos anos mostra que os EUA não estão se tornando mais isolacionistas. Ao mesmo tempo em que Clinton fala sobre isolamento, os investimentos americanos no exterior já nem cabem nos gráficos e o engajamento econômico americano no mundo bate recordes, afirmou Garten.





