Ambição e busca do lucro fácil estão na raiz da tragédia em Buenos Aires
Ambição e busca do lucro fácil estão
na raiz da tragédia em Buenos Aires
A empresa Lapa é acusada de descaso na manutenção do avião acidentado na terça-feira, que matou pelo menos 70
Ariel Palacios
Associated Press
De Buenos Aires
Ambição e desejo de lucro fácil estariam por trás do acidente do avião da empresa Lapa, que caiu logo após decolar na noite de terça-feira, causando a morte de pelo menos 70 pessoas.
A Associação de Funcionários Técnicos Aeronáuticos (em espanhol, a sigla APTA), além de técnicos de diversos órgãos, sustentam que o acidente, ocorrido no aeroporto metropolitano de Buenos Aires, o Aeroparque Jorge Newbery, teria sido causado pelo descaso na manutenção do aparelho, já que a empresa, para conseguir colocar tarifas mais baixas para o público, realizou drásticos cortes no orçamento, que reduziram a qualidade tanto do equipamento como dos funcionários.
Além disso, recordaram que no ano passado 12 dos 18 aviões da frota da Lapa foram retidos em terra durante cinco dias para verificações. O juiz federal Gustavo Literas, encarregado da investigação, afirmou que é importantíssima a denúncia da APTA. O presidente da Lapa, Gustavo Andrés Deutsch, declarou que sua frota estava em processo de renovação, mas que isso ainda não havia sido possível por causa dos impostos sobre os aviões.
Segundo a APTA, no ano passado foram detectadas sérias irregularidades na manutenção do equipamento eletrônico da cabine de comando do avião acidentado. Na ocasião, as fotocópias dos documentos que provariam essas falhas foram encaminhadas ao Departamento Nacional de Aeronavegação (DNA), dependente da Força Aérea.
No entanto, quando o DNA foi requisitar os originais nos escritórios da Lapa, perceberam que os documentos haviam casualmente desaparecido por causa de um roubo ocorrido no local. Curiosamente, pouco depois, o engenheiro Carlos Carmenini, encarregado pela DNA de realizar a fiscalização, foi contratado pela Lapa como representante técnico.
No programa de TV Dia D, apresentado pelo jornalista investigativo Jorge Lanata, foi criticada a dependência do controle aéreo argentino por parte dos militares. Nosso controle era feito por civis até 1968, depois, retrocedemos, disse o jornalista, que sugeriu que existe um especial vínculo entre a Lapa e os militares, já que diversos diretores da empresa pertenceram à Força Aérea. Do total de pilotos da empresa, 65% têm origem militar.
Segundo a APTA, para cada avião a Lapa possui seis técnicos de manutenção, enquanto que as duas outras grandes empresas argentinas, Aerolíneas e Austral, possuem 26 cada uma.
A Lapa começou seu crescimento em 1984, quando o milionário Gustavo Andrés Deustch adquiriu a companhia na época, uma minúscula empresa de aviação. Deutsch é um milionário argentino que até o começo deste ano foi um dos principais acionistas de Casa Tía, uma importante rede de supermercados. Nos quinze anos que seguiram, a Lapa cresceu, a ponto de agora participar do restrito clube das 200 maiores empresas do país.
Em 1994, a empresa deu seu grande salto: elevou seu faturamento de US$ 34 milhões para US$ 75 milhões em apenas um ano. Em 1998, as vendas chegaram a US$ 180 milhões. A fórmula do sucesso foi reduzir o preço das passagens, com o custo de fazer fortes ajustes dentro da empresa.
Desde o acidente do Boeing 737, diversos ex-técnicos e mesmo atuais funcionários da empresa denunciaram que o ajuste foi conseguido reduzindo gastos de manutenção, além do corte de horas de descanso dos pilotos e da tripulação, o que aumentou a insegurança dos vôos.
Enquanto que na Lapa os funcionários possuem jornadas de trabalho de nove horas e quatro dias de trabalho para dois de descanso, na concorrente Aerolíneas Argentinas os empregados possuem jornadas de oito horas, e a cada três dias de trabalho, descansam dois.
A denúncia foi feita pela prestigiada revista Veintidós, que afirmou que além disso, enquanto que nas outras companhias aéreas argentinas existem técnicos para os diferentes setores, como o elétrico, mecânico e rádio, na Lapa devem ser polivalentes: o técnico que se encarrega do trem de pouso é o mesmo que se ocupa de uma turbina.





