Aliados já admitem renúncia na Bolívia
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terça-feira, 14 de outubro de 2003
Fabiano Maisonnave<br> Enviado especial da<br> Agência Folha 
Cochabamba Os protestos na Bolívia se espalham pelo país enquanto o presidente Gonzalo Sánchez de Lozada vê seu apoio se esvair. Ontem, um dos partidos da base governista afirmou estudar a renúncia do presidente e o comandante das Forças Armadas afirmou que não apóia Sánchez de Lozada ''como pessoa'', mas sim ''um governo legitimamente constituído''.
Os manifestantes, que começaram exigindo o fim do plano para exportar gás boliviano usando o Chile como saída para o mar, já suspenso, afirmam que só pararão se Sánchez de Lozada renunciar. O presidente se recusa.
A base de apoio ao presidente vem ruindo a cada dia. Anteontem, o vice-presidente, Carlos Mesa, também presidente do Congresso, rompera com o governo e quatro ministros se demitiram. As Forças Armadas também ensaiam um distanciamento.
''Não é apoio ao presidente como pessoa. As Forças Armadas cumprem um mandato constitucional. A Constituição nos manda defender um governo legítimo'', disse o general Roberto Claros.
Na véspera, o mandatário dissera que ''a polícia e as Forças Armadas estão com a democracia'' e o apoiavam diante dos protestos que já duram mais de três semanas e causaram a morte de ao menos 56 pessoas.
O líder da Nova Força Republicana (NFR), que faz parte do governo e à qual são filiados três dos ministros que renunciaram, afirmou estar considerando a saída de Sánchez de Lozada.
''Temos que considerar se a preservação da democracia passa pela renúncia do presidente'', disse Manfred Reyes Villa. ''Não estou com o governo, estou com a democracia.'' Reyes Villa ficou em terceiro lugar nas eleições de 2002 atrás de Sánchez de Lozada e de Evo Morales.
Já o Movimento Bolívia Livre (MBL), que deixara a base do governo em fevereiro, alinhou-se aos manifestantes que pedem a renúncia do presidente. O partido, dirigido pelo cônsul boliviano no Chile, Víctor Rico, declarou apoio a Mesa e pediu que Sánchez de Lozada recue em prol da paz.
Horas antes, o ex-presidente Jaime Paz Zamora (1989-93) declarara seu apoio a Sánchez de Lozada. ''Que difícil é amar a Bolívia!'', disse. Em contrapartida, a Ação Democrática Nacionalista (ADN), do ex-presidente Jorge Quiroga (2001-2002), pediu ao presidente ''um gesto de grandeza: escutar o povo''.
O prefeito de La Paz, Juan del Granado, também pediu a renúncia de Sánchez de Lozada e a formação de ''um governo de transição'' em torno do vice-presidente.
Os protestos pela renúncia do presidente Gonzalo Sánchez de Lozada se espalharam pela Bolívia e chegaram às cidades de Cochabamba, Oruro, Santa Cruz e Potosí, que registraram ontem feridos.
A capital, La Paz, e a vizinha El Alto que já são palco de protestos há mais de três semanas estão sem transporte público e começam a enfrentar a falta de alimentos e de combustível. Com o aeroporto fechado e estradas bloqueadas, a capital está praticamente isolada do resto do país.
O comércio está fechado, o tráfego foi interrompido em diversos pontos e pouca gente sai às ruas. Os turistas que ficaram no país estão fechados em hotéis.
Na capital, onde os protestos foram ontem menos intensos do que na véspera, grupos de manifestantes bloquearam as entradas da cidade.


