Alcorão prega a paz, diz comerciante
Apesar do clima de paz no Brasil, os dois lados acompanham com preocupação, de Curitiba, as notícias internacionais. Entre eles, quase não se fala sobre o assunto, até porque cada um tem posição distinta. ''O que foi feito nos Estados Unidos foi muito grave, mas não dá para invadir um país como o Afeganistão, que está acabado por 40 anos de guerra e massacrar um povo que tem direito a viver'', diz Ali Omari, da loja Super Ofertão.
A proprietária da loja Hallo Baby, Sikne Hamond, de 62 anos, que nasceu no Líbano e veio para o Brasil em 1951, concorda. ''A religião muçulmana não permite matar, o Alcorão tem tendência à paz e não à guerra'', diz.
Filho de sírios, Marcos Hanna, de 23 anos, é mais contundente. De religião católica ortodoxa, já viajou oito vezes para a Síria, onde está noivo desde 1999 de uma estudante de engenharia civil, com quem pretende casar e morar no Brasil. Aqui, vive em harmonia entre árabes e judeus. Ele concorda que o atentado dos EUA é uma ''situação triste'', mas acredita que é também ''uma resposta do nosso povo''.
''Os Estados Unidos sempre atacaram, uma hora eles tinham que levar o troco. Não é justo invadirem o Afeganistão agora, destruir uma nação para repor o que os Estados Unidos perderam, sendo que nós perdemos muito mais ao longo da história'', afirma. Ironicamente, o nome de uma das lojas da família em Curitiba é ''New York Jeans''.
Representantes das entidades das duas comunidades falam com cuidado sobre o assunto. ''Ninguém pode ser a favor do que aconteceu nos Estados Unidos'', diz o diretor da Sociedade Beneficiente Muçulmana do Paraná, Kamel Mansur. Para ele, que nasceu no Brasil, mas foi criado no Líbano até os 16 anos, uma guerra, hoje, com o uso de armas nucleares, poderia resultar em uma catástrofe para toda a humanidade.
Já o presidente da Federação Israelita do Paraná, Simão Blinder, não acredita que o atentado resulte em uma 3ª Guerra Mundial. Para ele, o que ocorreu foi um ''ato de terror único e preocupante''. Por isso, ele defende que os Estados Unidos tenham uma ação forte, de maior rigor, que venha coibir novas ações semelhantes. ''O mundo sabe quais são os países que dão guarida para os terroristas. São criminosos, mas não estão presos porque têm esta guarida'', diz.
Para Mansur, a fórmula de paz ou de guerra depende dos Estados Unidos. ''Há um ditado árabe que diz que 'o golpe que não te mata, te ensina'. O golpe atingiu a estrutura americana, mas não acabou com o País. Por isso, é hora dos Estados Unidos repensarem sua política externa. O mundo não acabou. Os EUA não se abalaram totalmente, se comparado com o Iraque, por exemplo, onde morreram mais de 100 mil pessoas e eles continuam vivendo. Nós também não apoiamos Sadam quando ele invadiu o Kuwait, mas ele levou o golpe dos Estados Unidos e aprendeu'', diz o presidente da Sociedade Muçulmana, ressaltando que espera que o golpe não afete o mundo. ''Os Estados Unidos têm que agir com muita sabedoria'', completa Blinder. (M.G.)





