Alca será indesejável se EUA não cooperarem
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sábado, 21 de abril de 2001
Paulo Sotero Agência Estado De Quebec, Canadá 
Com mais de uma hora de atraso, provocado por violentos confrontos entre a polícia e centenas de manifestantes, os 34 chefes de governo do hemisfério iniciaram sexta-feira a terceira Cúpula das Américas num clima dominado pela tensão e a incerteza sobre o principal tema do encontro: o projeto de criação, a partir de 2005, da Área de Livre Comércio das Américas, a Alca.
A confrontação começou depois que grupos de manifestantes derrubaram um pedaço da cerca de cinco quilômetros erguida para garantir a segurança dos participantes do encontro.
As cenas de batalhas nas ruas, dramatizadas pelas nuvens de fumaça criadas pelas bombas de gás lacrimogêneo lançadas pela polícia contra os manifestantes, tornaram-se um embaraço para o governo de Ottawa, que já havia reconhecido, na véspera, estar perdendo a batalha de relações públicas com os sindicatos e organizações cívicas canadenses mobilizadas para impedir o sucesso da Cúpula e frustrar seu principal objetivo, que é dar impulso político às estagnadas negociações da Alca.
O sucesso do ataque contra a cerca de proteção mostrou a fragilidade do esquema de segurança e reforçou a possibilidade de os manifestantes reproduzirem o sucesso de propaganda que obtiveram em Seattle, em dezembro de 1999, quando o protesto pacífico de milhares de sindicalistas e militantes de organizações não-governamentais e atos de violência perpetrados por grupos isolados de anarquistas ajudaram a provocar o colapso de uma reunião ministerial da Organização Mundial de Comércio e a selar a primeira grande vitória do movimento antiglobalização.
Não se espera um colapso da Cúpula de Quebec. Mas o clima de tensão nas ruas sublinhou as dificuldades que aguardam as negociações da Alca. O presidente Fernando Henrique Cardoso encarregou-se de deixar essas dificuldades claras ao falar na cerimônia de inauguração da cúpula.
Num discurso contundente, calculado para dissipar quaisquer dúvidas sobre as condições da participação do Brasil na Alca que chamou apenas de uma possibilidade o líder brasileiro defendeu o objetivo da construção de uma Comunidade das Américas, que se traduza numa efetiva integração do hemisfério, pautada pelas tarefa de eliminação de profundas desigualdades e de condições de vida, tanto dentro dos países como entre os países.
Não existe apenas uma, mas várias Américas, talvez 34 Américas ou melhor, 35, aí incluído, como esperamos possa ocorrer em futuro não distante, o povo amigo e irmão de Cuba, começou Fernando Henrique, referindo-se ao único país excluído do encontro.
Ele lembrou que grande parte do continente foi assolada por regimes ou práticas autoritárias que suprimiam a democracia em nome da liberdade, e violavam as mais básicas liberdades em nome da democracia, para dizer que o empreendimento da integração que hoje levamos a efeito nas Américas só é possível porque está alicerçado na adesão de todos, sem exceção, aos valores e princípios da democracia.
Único dos líderes presentes que fala os quatro idiomas do continente, Fernando Henrique fez breves trechos do discurso em espanhol, inglês e francês. Ele defendeu uma integração comercial orientada pelo diálogo e o entendimento (...) que levem a maior acesso aos mercados e às tecnologias, bem como a maiores investimentos nos países menos desenvolvidos da região, pois assim poderemos responder às aspirações dos povos deste continente e, com mais urgência, às aspirações dos mais pobres e mais vulneráveis.
Num recado aos Estados Unidos, que iniciaram ação na Organização Mundial de Comércio (OMC) contra o mecanismo de licença compulsória da lei de patentes farmacêuticas do Brasil, Fernando Henrique disse que é pelo diálogo e pela cooperação que os países podem responder a desafios com o tratamento da Aids e reiterou a oferta brasileira de compartilhar o programa modelo que se desenvolveu nesse campo com outros países em desenvolvimento.
O livre comércio é um dos instrumentos para a realização dos objetivos da integração, e não um fim em si mesmo, disse ele. A eliminação progressiva dos obstáculos às trocas comerciais pode desempenhar um papel decisivo na criação de oportunidades para o crescimento econômico e para a superação das desigualdades, explicou.
Depois de reafirmar a prioridade que o Mercosul tem para o Brasil, o presidente disse que a Alca será bem-vinda se sua criação for um passo para dar acesso aos mercados mais dinâmicos; se efetivamente for o caminho para regras compartilhadas sobre antidumping, se reduzir as barreiras não tarifárias; se evitar a distorção protecionista das boas regras sanitárias; se, ao proteger a propriedade intelectual, promover, ao mesmo tempo, a capacidade tecnológica de nossos povos; e, ademais, se for além da Rodada Uruguai e corrigir as assimetrias então cristalizadas, sobretudo na área agrícola. Não sendo assim, seria irrelevante, ou, na pior das hipóteses, indesejável, afirmou Fernando Henrique.
Se tivermos a sabedoria de fazê-la bem-feita, a Alca pode vir a ser um avanço da promoção do desenvolvimento e da justiça social O presidente brasileiro concluiu dizendo que o destino das negociações depende das (da capacidade) lideranças políticas chefe de Estado, governo, parlamentares e movimentos da sociedade civil de realizar a grandeza de nosso hemisfério e chamando atenção para os protestos nas ruas contra a Alca.
As milhares de pessoas que se manifestaram nas ruas de Quebec esperam isso de nós. Seu protesto é motivado pelo temor de uma Alca ou de uma globalização sem rosto humano. E mais importante: as centenas de milhões de pessoas que não vieram a Quebec, mas cujo destino é parte inseparável da integração, esperam isso de nós, e não apenas neste encontro, mas nos anos que estão por vir. É este o nosso desafio. Seu discurso foi o mais aplaudido dos cinco da cerimônia de abertura.
Prisões Cerca de cem manifestantes foram presos na capital canadense durante as manifestações contra a globalização que duraram até a madrugada de ontem, afirmou Daniel Lamirande, porta-voz da polícia da cidade onde acontece a III Cúpula das Américas.
Uma manifestação pacífica estava programada para ontem à tarde, mas não se descarta a possibilidade de novos confrontos. Ônibus cheios de manifestantes continuaram chegando durante a noite em Quebec, vindos de diferentes regiões do Canadá e do Nordeste dos Estados Unidos.


