África espera pelo pior da pandemia com ações duras
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sexta-feira, 01 de maio de 2020
Fábio Zanini - Folhapress 
São Paulo - Continente até aqui menos afetado pelo coronavírus, a África aguarda nervosamente pelo aumento no número de casos que inevitavelmente virá. Suas dificuldades para vencer a doença ocorrem por conta da infraestrutura de saúde deficiente, favelas que dificultam o isolamento social e grande percentual de trabalhadores informais.

Os contornos são dramáticos, como mostram alguns dados coletados pela ONG americana International Rescue Committee, que atua em 20 países africanos. No Sudão do Sul, há apenas 24 leitos de UTI e 4 respiradores para uma população de 10,5 milhões.
Em Burkina Fasso, existem 11 respiradores para 20,8 milhões de pessoas. Serra Leoa (6,6 milhões de habitantes) tem 13 destes equipamentos, enquanto a República Centro-Africana (5,9 milhões) conta com apenas 3. Na Somália, são 15 leitos de UTI para 11,7 milhões de habitantes.
Nenhum deles até agora chegou à marca de mil casos ou de 50 mortes. Mas autoridades de saúde do continente dizem que esse cenário é ilusório. "Estamos num esforço de prevenção, mas sabemos que podemos estar rumando para um surto maciço. Precisamos nos preparar para administrar esse número de casos, que vai definitivamente aumentar", disse John Nkengasong, diretor do Centro para Controle de Doenças da União Africana, em declaração na segunda-feira (27).
Até esta quinta (30), havia mais de 38 mil contaminados na África, com 1.600 mortes, em praticamente todos os países – a exceção é Lesoto, pequeno reino encravado na África do Sul. Segundo contabilidade do site Worldometers, são 28,59 casos por milhão de habitantes no continente, ainda bem abaixo da média mundial, de 415 por milhão.
Nas estimativas da União Africana, até o início de junho 45 dos 54 países do continente terão mais de 10 mil casos de Covid-19. Prevendo um colapso do sistema de saúde, diversos países têm adotado algumas das medidas mais duras de isolamento social, mesmo com número de casos ainda baixo.
A África do Sul, que lidera o número de infectados no continente, (5.350, com 103 mortes), implementou um lockdown espartano, que incluiu até a proibição de venda de bebidas alcoólicas e cigarro.
Ao todo, 39 dos 54 países africanos implementaram alguma forma de lockdown, e 17 estabeleceram toque de recolher noturno. Muitos apesar de terem apenas algumas dezenas de casos confirmados por enquanto. Diretor da Selpal, fintech destinada às camadas de baixa renda na África do Sul, Sanele Gaqa afirma que as restrições draconianas paralisaram as townships, as gigantescas favelas do país.
"A economia das townships é baseada na habilidade de se mover. Se você tem emprego fixo, precisa de transporte público, que foi severamente restrito. Se é um vendedor informal, precisa conseguir sair de casa e arrumar meios de obter o sustento do dia. Nada disso existe no momento", afirma.
Responsável pelo perfil do Twitter Covid State Watch (Observatório Estatal da Covid), a advogada australiana Eda Seyhan diz que países africanos têm se destacado entre os que mais usam leis de isolamento social para cometer abusos contra seus cidadãos.
"Problemas que sempre existiram com o policiamento foram exacerbados com a pandemia", afirma ela, que compila denúncias de violência policial contra pessoas que supostamente estariam furando medidas de lockdown no mundo. Segundo Seyhan, na Nigéria e no Quênia, até a semana passada, mais pessoas haviam morrido nas mãos de policiais que implementavam políticas de restrição do que em razão da doença.


