Afegãos e muçulmanos se preparam para represália
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sexta-feira, 14 de setembro de 2001
Agência Estado 
Em um clima de temor pela possibilidade de um ataque militar dos EUA, os afegãos, cansados de guerra, preparavam-se ontem para mais derramamento de sangue, falavam sombriamente sobre seu destino e alguns já começavam a abandonar o país. ''Já sofremos tanto. A cada noite, muitas crianças vão para a cama com fome'', disse Zalmai, um professor que, como muitos afegãos, só usa um nome. ''Que razão temos para viver? Que venham os mísseis e incendeiem este país de uma vez por todas.''
A guerra civil ceifou milhares de vidas nas últimas décadas, e o país é um provável objetivo das represálias norte-americanas porque seus governantes talebans dão asilo a Osama bin Laden, principal suspeito pelos ataques terroristas de terça-feira. No Afeganistão e no resto do mundo muçulmano, a reação diante dos ataques foi da alegria à indignação e ao medo ontem, o dia de descanso para o Islã.
Ontem, na cidade paquistanesa de Peshawar, centenas de pessoas saíram de uma mesquita aos gritos de ''Jihad'', ou guerra santa, e gritaram consignas em favor do Afeganistão. Outros muçulmanos expressaram sua profunda consternação pelo pior ato de terrorismo da história dos EUA.
''Como muçulmano, eu me sinto muito perturbado em pensar que estes atos terríveis possam ter sido cometidos por outros muçulmanos'', disse Mohamed Rahman Noordin, banqueiro de 35 anos de Kuala Lumpur, Malásia. ''Mas os que o fizeram, eu os considero traidores do Islã.''
''Quem fez isto não pertence a nenhuma religião. Não é muçulmano, embora diga que é. É um animal'', disse Shabiz Ahmed Sayedqui, um vendedor muçulmano de 42 anos, que saía das orações na maior mesquita de Nova Délhi, na Índia.
Os fundamentalistas islâmicos são os principais suspeitos de terem perpetrado os ataques e funcionários em todo o mundo tentam evitar represálias violentas contra os muçulmanos, que têm sido alvo de ataques e ameaças nos últimos dias.
''Qualquer inimigo dos muçulmanos será castigado por Deus'', disse com voz tonitroante o imã Mohammed Muslim Haqqani durante as orações em uma mesquita de Cabul. ''EUA e Israel são inimigos do Islã.''
O presidente paquistanês Pervez Musharraf se vê obrigado a escolher entre a promessa de cooperação total com Washington e o risco da ira dos fundamentalistas muçulmanos em seu país ou não cooperar e arriscar-se a provocar a ira de Washington.
O dilema é o mesmo para os governantes talebans do Afeganistão: ou entregar Bin Laden e arriscar-se a enfurecer os estrangeiros, indispensáveis em sua guerra contra os opositores, no norte do território afegão, ou continuar abrigando Bin Laden e arriscar-se a um ataque total do Exército mais poderoso do mundo.


