Afegãos assinam acordo histórico
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 06 de dezembro de 2001
Antonio Rodríguez<br>De Bonn 
As delegações afegãs na conferência de Bonn, patrocinada pela ONU, assinaram ontem um acordo histórico sobre a formação de um governo interino, na esperança de alcançar a paz depois de quase 25 anos de guerra. Os líderes das quatro delegações que participaram da conferência e o representante especial da ONU para o Afeganistão, Lajdar Brahimi, referendaram o documento, na presença do chanceler alemão Gerhard Schroeder e do ministro das Relações Exteriores, Joschka Fischer.
''As esperanças de seu povo são elevadas, desta vez vocês não podem decepcioná-lo'', disse Brahimi aos delegados. O líder da delegação da Aliança do Norte, Yunis Qanuni, prometeu aos afegãos que ia pôr fim a seus sofrimentos, referindo-se aos 22 anos de guerra vividos pelo Afeganistão, desde sua invasão pelas tropas soviéticas em 1979.
''Éramos os campeões da resistência e agora demostraremos que vamos lutar com idêntica determinação para nos converter em campeões da paz'', declarou. Schroeder desejou sorte aos delegados. ''O trabalho não terminou ainda e se abre um novo capítulo na história do Afeganistão que, esperamos, seja bem-sucedido'', afirmou.
A assinatura do documento aconteceu horas depois que os delegados conseguiram um acordo sobre a divisão dos cargos no governo interino, que dirigirá o país durante seis meses a partir do dia 22 deste mês.
O líder pashtum Hamid Karzai, 44 anos e ligado ao ex-rei Zahir Sha, liderará o governo, que contará com cinco vice-presidentes e outros 24 membros. O novo presidente se encontra atualmente no Afeganistão, lutando à frente de seus tropas em Kandahar.
O governo interino governará o país até a realização da primavera (boreal), de uma Loya Jirga, uma grande assembléia tradicional, que terá de ser organizada por uma comissão especial independente de 21 membros. O porta-voz de Brahimi, Ahmad Fawzi, disse que a Aliança do Norte, que tomou Cabul em 13 de novembro, terá os principais ministérios do governo interino.
Qanuni será ministro do Interior, Abdulah Abdulah, ministro das Relações Exteriores e Mohamad Qasim Faim, ministro da Defesa, afirmou o porta-voz. Os nomes dos outros integrantes da autoridade interina, entre eles duas mulheres, não foram divulgados ainda, mas Brahimi disse que já foram aceitos pelos delegados.
O ex-rei Zahir Sha, deposto em 1973 e desde então exilado em Roma, abrirá a Loya Jirga. Segundo o acordo, a assembléia terá de nomear um governo de transição que dirigirá o país ''até a eleição de um governo totalmente representativo em eleições livres e justas, que deverão ser realizadas no mais tardar dois anos depois''. As delegações também pediram ao Conselho de Segurança que autorize a mobilização o mais rápido possível de uma força sob controle da ONU no Afeganistão.
''Essa força participará na manutenção da segurança em Cabul e em sua região'', acrescenta o texto. O acordo visa também a retirada de todas as unidades militares de Cabul e das outras regiões nas quais a força sob mandato da ONU será posicionada. Uma segunda Loya Jirga será realizada no prazo de 18 meses depois da primeira para aprovar uma nova Constituição. O tratado também prevê a instauração de um Tribunal Supremo no Afeganistão.


