Os 20 países membros da coalizão humanitária internacional de auxílio aos refugiados no leste do Zaire aprovaram formalmente, ontem, o estabelecimento de uma força multinacional que será comandada pelo general canadense Maurice Baril, segundo revelaram responsáveis canadenses.
O envio de tropas, autorizado pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas, ficou muito difícil por causa da hesitação dos EUA em participar da operação e do conflito de interesses entre os governos, etnias e movimentos armados da região.
O porta-voz do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur), Paul Stromberg, reconheceu que o lançamento de alimentos de pára-quedas é o ‘‘último recurso’’ para fazer a ajuda chegar aos hutus que estão no Zaire, mas criticou a pouca disposição do Ocidente de enviar soldados. ‘‘Sem efetivos, como vamos organizar a distribuição da ajuda?’’, protestou.
Mais de 500 mil refugiados hutus já retornaram para Ruanda, de onde fugiram em 1994, após a guerra civil ruandesa. Segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), cerca de 250 mil ainda vagam pela região dos Grandes Lagos, onde rebeldes da etnia rival tutsi lançam ofensivas contra o Exército zairense. Ontem, os guerrilheiros tomaram - praticamente sem combate - a cidade zairense de Butembo, no norte do país. Os rebeldes já controlam quase todo o leste do Zaire, inclusive as duas principais cidades da região, Goma e Bukavu.
Temor belga A Bélgica teme a desintegração de sua ex-colônia do Zaire em caso de secessão das províncias orientais de Kivu do Norte e Kivu do Sul, considerando que o Presidente Mobutu Sese Seko já não está em condições de impor a unidade do país.
‘‘Todo mundo teme uma desintegração desse grande país’’, que afetaria seus vizinhos, afirmou um alto funcionário belga, criticando o apoio que o Governo francês continua dando a Mobutu, atualmente em convalescença no Sul da França.
‘‘Será que Mobutu ainda pode fazer algo positivo por seu país?’’, questionou o funcionário. ‘‘Esse homem teve 35 anos de poder para desenvolver seu país, onde não resta grande coisa e o povo não tem nada’’, argumentou, denunciando a corrupção que reina no Zaire.
A Bélgica considera que ‘‘a união do Zaire continua sendo muito importante’’ e sua desintegração teria consequências para muitos países vizinhos, como Uganda, Burundi ou Angola. Uma das soluções poderia ser avançar para uma ‘‘descentralização’’ e um ‘‘federalismo’’, estimou o funcionário.
Zaire, Ruanda e Burundi foram colônias da Bélgica até o início dos anos 60. Hoje, as autoridades belgas não poderiam itnervir em um conflito entre as forças governamentais zairenses e os rebeldes banyamulenges sem ser acusadas de segundas intenções.
‘‘Estamos em muito má posição para dar lições a alguém’’, reconheceu o funcionário, que não quis se identificar.
Assim como a França, a Bélgica defendeu incansavelmente nas últimas semanas o envio de uma força multinacional para a região de Kivu.

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