Le Bourget, França - Após a euforia e os discursos que saudaram o acordo de Paris sobre o clima como um "passo histórico", a parte mais difícil vem a seguir: concretizar os ambiciosos compromissos assumidos por 195 países na noite de sábado, na 21ª Conferência do Clima (COP-21) das Nações Unidas.
Resumindo um sentimento geral, o presidente americano, Barack Obama, reconheceu que "o problema não está resolvido com o Acordo de Paris". As divergências que foram expressas em quase duas semanas de difíceis negociações em Bourget, perto de Paris, destacaram a magnitude dos obstáculos a serem superados.
O documento obriga todas as nações signatárias a organizar estratégias para limitar o aumento médio da temperatura da Terra a 1,5ºC até 2100 e prevê US$ 100 bilhões por ano para projetos de adaptação dos efeitos do aquecimento a partir de 2020. Trata-se do mais amplo entendimento na área desde o Protocolo de Kyoto, assinado em 1997.
A tarefa se anuncia difícil: o aquecimento global já atingiu quase um grau, advertiu no mês passado a Organização Meteorológica Mundial. E mesmo se forem respeitados, os compromissos de redução de emissões de gases do efeito estufa já anunciados por quase todos os países colocam a Terra em uma trajetória de +3ºC. A única esperança reside no fato de as disposições do acordo incentivar os países a rever as suas promessas para cima nos próximos anos.
De acordo com o Climate Action Tracker (CAT), que reúne quatro institutos de pesquisa, as promessas feitas pela maioria dos países são "insuficientes" e "quase todos" devem rever os seus compromissos em 2025 ou 2030.
Para atender a essa necessidade, o acordo estabelece um mecanismo de avaliação quinquenal das metas. Ficou acertado que um primeiro balanço dos objetivos será realizado em 2018, mas a primeira verificação de fato acontecerá em 2023.
As nações desenvolvidas resistiram dias a fio à inclusão de menção específica no acordo à quantia de US$ 100 bilhões por ano de ajuda aos países mais pobres. A cifra, porém, ficou no texto final.
Esse valor fazia parte do compromisso assumido na fracassada conferência de Copenhague, em 2009. Deveria ser alcançado até 2020, o que ainda não ocorreu.
As potências exigiram que o acordo previsse uma contribuição, mesmo que voluntária, dos demais países. Assim ficou, mas o documento também prevê que os ricos terão de relatar a cada dois anos quanto investiram na mitigação dos efeitos climáticos e como isso foi feito.
Agora, tanto os esforços de todos os países para cortar emissões quanto os recursos investidos pelas nações desenvolvidas poderão ser monitorados por todos. "Atrelar as finanças com a maior ambição [sobre emissões] foi uma excelente jogada", diz Ana Toni, do Instituto Clima e Sociedade brasileiro.
A cifra de US$ 100 bilhões é mencionada de forma textual no preâmbulo do texto aprovado. No texto do acordo propriamente dito (as últimas 11 páginas), só há a recomendação de que "a mobilização de recursos financeiros para o clima deveria representar uma progressão que vá além dos esforços anteriores".
O estratagema de ser mais vago no acordo parece ter sido talhado para contornar as dificuldades levantadas pelo Congresso americano, que se recusa a chancelar qualquer documento com esse tipo de obrigação para os EUA.

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