Acidente põe privatizações em xeque
Reali Júnior
Agência Estado
De Paris
Se a possibilidade de renacionalização do sistema ferroviário britânico está inteiramente descartada, o governo de Tony Blair e de outros parceiros europeus poderão ser levados a neutralizar alguns projetos de privatização de serviços públicos em seus países, como se o ultraliberalismo que prevaleceu nos últimos anos tivesse descarrilado.
O acidente ferroviário da semana passada em Paddington, na Inglaterra que matou dezenas pode constituir um marco não para sustar o processo de privatizações na Europa, mas para estabelecer um melhor equilíbrio entre os setores público e privado, evitando excessos que têm preocupado até mesmo alguns dos apóstolos das privatizações, entre eles o professor de Economia e ex-primeiro-ministro francês Raymond Barre.
No fim de semana, o inspirador da reunião de Davos, na Suíça, na qual anualmente se reúnem empresários, economistas, financistas, ministros e chefes de Estado de todo o planeta para discutir os rumos da economia mundial, lançou uma advertência à França contra os excessos da privatização. A seu ver, a catástrofe britânica nos leva a refletir sobre as privatizações, lembrando que nessa área é extremamente importante que prevaleça o interesse coletivo.
Barre está convencido que seria muito difícil privatizar na França um setor como o de transporte ferroviário ou a EDF (rede de eletricidade). Ainda segundo ele, a privatização do setor ferroviário britânico foi uma das consequências nefastas da ideologia dos conservadores britânicos.
Apesar de ter sido privatizada há apenas três anos, o Estado britânico só no ano passado gastou 2,8 bilhões de francos (cerca US$ 450 milhões) com as 100 companhias privadas concessionárias da rede ferroviária, apesar de a maioria delas ter anunciado uma margem de lucro importante com a exploração de seus trechos.
Hoje, todos os analistas britânicos são unânimes. As circunstâncias desse acidente ferroviário terão uma forte influência no futuro do processo de privatização no país.
O sistema de controle aéreo britânico, por exemplo, deveria ser privatizado muito rapidamente. Hoje, o secretário-geral da Belpa, principal sindicato de pilotos do país com mais de 8 mil membros, Christopher Darke, manifestou sua disposição de combater a medida: Ninguém quer que um drama dessa natureza possa reproduzir-se sob o pretexto de que uma empresa privada reduza as despesas de segurança para aumentar seus lucros. Esse projeto, normalmente, seria incluído no discurso anual da rainha, que deverá ser lido no próximo mês, mas, agora, há dúvidas sobre se isso vai realmente ocorrer.
O sistema está saturado e precisa de investimentos de cerca de US$ 1,5 bilhão, fato que levou o governo britânico a projetar a venda de 51% das suas ações. No Partido Trabalhista aumentam os opositores à idéia de tudo privatizar. Outro projeto que poderá ser pelo menos retardado é o da privatização do sistema de metrô, mesmo porque um dos candidatos a participar dessa operação é a empresa Railtrack, a mesma que Blair decidiu afastar da responsabilidade pela segurança da rede ferroviária após o acidente.
Na França, o primeiro-ministro Lionel Jospin, que dirige o governo que mais privatizou em toda a história da V República, não ousou transferir para o setor privado a SNCF, a rede ferroviária francesa, e a RATP, responsável pelos transportes urbanos, ônibus e metrô. As duas companhias permanecem sob controle estatal e não se fala de nenhuma próxima privatização.
O limite da privatização será um dos temas dos debates da próxima reunião da Internacional Socialista, em Paris, no início de novembro, quando Blair, Jospin e o alemão Gerhard Schroeder deverão apresentar suas propostas sobre os melhores caminhos para a social-democracia na virada do século.





