Acesso à água ainda é limitado
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domingo, 21 de março de 2004
France Presse 
Paris -Bilhões de dólares vêm sendo mal gastos há 30 anos em investimentos sem qualquer utilidade em serviços de água e saneamento nos países em vias de desenvolvimento, segundo um relatório da ONU, que pede mudanças drásticas a respeito.
''Da Índia à Bolívia e do Quênia ao Nepal podem ser encontrados os traços de dezenas de programas hoje desaparecidos e que só produziram uma ínfima parte dos benefícios esperados'', destacou o relatório, publicado na quinta-feira por uma agência especializada das Nações Unidas, o Conselho de Conciliação da Campanha Água, Saúde e Higiene para Todos (Wash, sigla em inglês), às vésperas do Dia Mundial da Água, celebrado hoje.
Segundo a ONU, a principal causa dos fracassos é a natureza dos projetos, geralmente ''soluções pré-elaboradas na forma da instalação de material, sem a participação das populações (envolvidas)''. ''Não é apenas uma questão de meios'', advertiu Jan Pronk, presidente da Wash. A agência avalia que, com meios relativamente modestos, da ordem de 30 bilhões de dólares ao ano, mas bem utilizados, seria possível reduzir à metade a proporção de pessoas que não dispõem de água potável nem de serviços sanitários até 2015, objetivo da comunidade internacional fixada na Cúpula da Terra, celebrada em 2002 em Johannesburgo (África do Sul).
Um bilhão e cem milhões de pessoas no mundo não têm acesso à água potável e 2,4 bilhões vivem sem instalações sanitárias e de esgoto. ''Os países e as organizações internacionais têm a tendência de privilegiar os serviços em grande escala e de grande orçamento, administrados de forma hierárquica, orientados na questão material, que são alvo de um acompanhamento estatístico e uma organização de cima para baixo'', explicou o relatório.
O resultado de tudo isso é uma ''incompreensão absoluta entre o provedor e o usuário e, finalmente, a recusa da população local de usar o serviço em questão, de pagar por ele e mantê-lo''.
O relatório menciona ''uma longa experiência de latrinas nunca limpas, nunca cuidadas e que acabam nunca sendo utilizadas''.
Em Bangladesh, 30 anos de esforços e milhões de dólares investidos não puderam erradicar a evacuação ao ar livre, causadora de graves epidemias e disenteria.
Uma ONG local abordou o problema de forma totalmente diferente, fazendo com que a população o assumisse e concebeu as latrinas adaptadas.
Estas ações, muito menos caras que os projetos clássicos, se chocam com as práticas dominantes. ''Para começar, há menos dinheiro a ganhar'', denunciou o informe. ''A manutenção dos métodos atuais servirá, provavelmente, aos interesses das empresas que os da população pobre'', reforçou o WASH.
A agência destacou que o problema começa a ser entendido e que ''programas de ajuda da Alemanha, Canadá, Noruega, Holanda, Reino Unido e Suíça agora apóiam as soluções aplicadas pela população local no domínio da água e do saneamento'', mas se trata do ''começo tímido de um esforço de ajuda internacional que continua dando o essencial de seu apoio a grandes projetos de infra-estruturas baseadas, principalmente, nas perícias, nas exportações, nas empresas de construção e na tecnologia de países industrializados''.


