Ação de Annan muda relações no mundo
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sábado, 28 de fevereiro de 1998
Gilles Lapouge Agência Estado 
Arquivo FolhaCanhões silenciososTodas as canhoneiras estavam com sua baterias armadas. Kofi Annan pega o seu bastão de peregrino e vai a Bagdá. E a guerra termina num empate técnicoEste início de 1998 foi marcado, não por um acontecimento, mas por uma ausência de acontecimento: a tal da guerra contra o Iraque que, durante semanas, Washington preparou com todo carinho, lustrou, poliu, mimou e, na última hora, saiu pela culatra.
Todas as canhoneiras estão com suas baterias armadas. A qualquer momento pode-se tirar o Apocalipse da algibeira. Só que, de repente, um carinha chamado Kofi Annan, secretário-geral da ONU, toma o seu bastão de peregrino e vai para Bagdá. E a guerra termina, digamos, num empate técnico.
Essa é que é a tal ausência de acontecimento. Só que, pensando bem, essa ausência foi mesmo um acontecimento. O resultado dessa guerra escamoteada na 25ª hora será o de modificar o conjunto das relações no Oriente Médio e até mesmo no mundo inteiro, e o de redistribuir papéis e possibilidades no mapa-mundi geoestratégico. Uma rápida passagem em revista dos homens há de nos permitir dizer quem saiu ganhando ou perdendo.
Kofi AnnanO triunfo que lhe foi reservado em Nova York (da mesma forma que, na Roma antiga, um triunfo era reservado aos generais vitoriosos) foi eloquente. Esse triunfo permite que, nos calendários impassíveis da diplomacia, intrometam-se emoções e corações disparados. Kofi Annan mostrou uma dignidade perfeita: foi calmo, sorridente, cortês, aparentemente sem mácula. E, no entanto, tinha dado o primeiro passo com desvantagens sérias.
Um ano atrás, quando substituiu Boutros-Ghali, a França torcia o nariz para ele (principalmente porque é anglófono, ao contrário de Ghali, a quem os franceses viviam fazendo mimos), porque todos achavam que ele era um homem dos americanos dentro da ONU e também porque ele é o típico apparatchik gentil mas fraco e sem graça.
A segunda desvantagem é o próprio passado da ONU que, nos últimos anos, meteu os pés pelas mãos em tudo e tornou-se responsável por gestões abomináveis. Na véspera da Guerra do Golfo, o predecessor de Annan, Pérez de Cuellar, também foi a Bagdá, não conseguiu nada, e os EUA atacaram. Na Somália, em Ruanda, na Bósnia principalmente, todas as iniciativas da ONU deram em retiradas, derrotas, sangueira.
Durante muito tempo, Kofi Annan não dá um pio. Parece não estar nem aí. Os EUA urram, resmungam, se descabelam. A guerra vem vindo. No último momento, Kofi Annan viaja para Bagdá. Calado, sorridente, enfia-se no olho do furacão. E em dois dias, esse sujeitinho sem graça, que todo mundo vê como um pau-mandado dos americanos, demonstra energia e independência. E a ONU, que andava fazendo coleção de fracassos, obtém seu primeiro sucesso. E faz a guerra recuar.
Bill ClintonRaramente a cara de Madeleine Albright, a secretária de Estado dos EUA, é divertida. Mas quando surgiu, ao lado da de Kofi Annan, depois do sucesso desse último, parecia-se com a da Maléfica, dos desenhos de Walt Disney. Não era mais uma cara, era uma careta. E essa careta felicitou-se por o secretário-geral da ONU ter obtido sucesso tão brilhante com a sua viagem a Bagdá, viagem essa contra a qual a Casa Branca tinha batalhado com todo ardor.
De fato, o desenlace relâmpago e surpresa da crise dá panos para manga a todos os inimigos dos EUA. Com injustiça, pois está bem claro que Kofi Annan nunca teria conseguido dobrar Saddam Hussein se Clinton não tivesse feito uma demonstração de força agitando no ar a sua azagaia e ameaçando desenterrar a machadinha da guerra.
Que recriminações pode-se fazer a Clinton? A grosso modo, a de não ter entendido que 1998 não é um repeteco de 1991. Naquela época, o Iraque era arrogante, forte, e tinha invadido um país estrangeiro, o que é um sacrilégio. O casus belli entrava pelos olhos. Bem gerida por George Bush, essa história tinha conseguido alinhar, ao lado de Washington, a quase totalidade do mundo, incluindo, o que é extraordinário, a maioria dos países árabes e muçulmanos, da Turquia ao Egito, além da França, da Rússia, etc.
Guerra-relâmpago, CNN, esmagamento de Saddam Hussein. Só que não se foi até o fim das coisas, e Saddam Hussein ainda está em Bagdá. Os EUA decretaram um bloqueio desumano, na esperança de derrubar o tirano. Mas ele não caiu por mais que as crianças empalidecessem. Durante sete anos, os EUA foram inacapazes de resolver o problema iraquiano, da mesma forma que não dão conta de resolver o do Oriente Médio, pois permitem a Netanyahu reduzir a cacos o processo de paz iniciado em Oslo.
E quando Clinton resolve tirar de novo o Iraque do bolso do colete, o mundo inteiro fica com a sensação de estar assistindo de novo ao mesmo filme e começa a achar que os EUA não tem imaginação nenhuma e ficam jogando eternamente a mesma cartada. É claro que há as armas bacteriológicas mas, à exceção de Tony Blair, o resto do mundo desejaria que houvesse uma outra forma de debater esse problema. O resultado, para Washington, é terrível. Como aliados, ele só tem a Grã-Bretanha, o Kuwait e o Omã. O resto todo é hostil (a Rússia, a China), crítico (a França) ou prudente (a Alemanha).
O grande editorialista americano William Pfaff é feroz: Os encargos do Império são pesados e Bill Clinton está longe de ser Júlio César. E Robert Pelleteau, ex-secretário de Estado adjunto para o Oriente Médio: A triste verdade é que os EUA não têm estratégia referente ao Iraque. Na França, a esquerda manifestou, mas sem paixão, as suas corriqueiras desconfianças em relação aos EUA. Mas a direita, encantada de poder reencontrar o antiamericanismo visceral que fez a guerra e, às vezes, o gênio, do general De Gaulle, solta os cachorros no presidente Clinton.
O melhor especialista em diplomacia da direita, Thierry de Montbrial, exulta: É evidente que nenhum equilíbrio será possível, no Oriente Médio, sem a participação de todos os atores, inclusive do Iraque, e também do Irã, e sem que se dê atenção aos interesses de todos, e não só dos americanos ou dos ocidentais! Esse tiroteio cerrado é injusto, repito, pois isso significa esquecer que o balé diplomático só deu certo graças à exibição da força americana. Mas é assim que as coisas são: aos olhos de muita gente, os EUA não conseguiram melhorar a sua imagem.
Saddam HusseinUma das coisas de amargar, nesta guerra nervosa, é que um homem detestável como Saddam Hussein, tirano sanguinário, carasco de seu próprio povo, figure no campo dos vencedores e tenha sido miraculosamente reequilibrado em cima da sua sela. A Guerra do Golfo, de 1991, tinha isolado o tirano de Bagdá; 1998 recoloca Bagdá no coração da diplomacia internacional. Amitzar Baram, professor da Universidade de Haifa, em Israel: Um sucesso excepcional para Saddam Hussein. A rádio oficial do Irã, país que arrastou dez anos de uma guerra pavorosa contra o Iraque: Vitória diplomática do Iraque. Um diplomata francês: Não podemos nos esquecer de uma outra vitória de Saddam Hussein: a suspensão do embargo, que os EUA não queriam, e que se tornou uma probabilidade.
Em Bagdá, o chefe detestado, odiado, recupera, se não a amizade de seu povo, pelo menos a sua aura de salvador do mundo árabe contra o imperialismo americano. Embora a maior parte das capitais árabes despreze o tirano que tanto mal fez à causa árabe, hoje, impelidos pelo brutal antiamericanismo de seu povo, elas se vêem obrigadas a cantar os louvores do ditador de Bagdá.
Benjamin NetanyahuEste aí faz parte das baixas da guerra que não aconteceu. O gosto que demonstra pelas operações militares, as encenações que organizou (distribuição de máscaras antibacteriológicas), tudo isso parece grotesco, agora que o perigo não passou nem perto.
A Síria, o Irã, o Iraque e a Líbia saberão agora como nos pôr de joelhos, comenta Ron ben Ysai. E o célebre editorialista Nahum Barnea resume: Saddam ganhou. Israel perdeu. Não é preciso nem dizer que, por um efeito mecânico, os palestinos de Yasser Arafat estão muito contentes. Boa notícia vinda de Bagdá, gritou Arafat. E nos meios palestinos, espera-se que os EUA, depois dessa falsa manobra, sejam obrigados a reativar um processo de paz que está agonizante.
A FrançaEla foi, ao lado da Rússia, uma das nações mais empenhadas em jogar a carta da diplomacia. O presidente Jacques Chirac jogou com muita elegância. E não só nos últimos dias.
À ação oficial, espetacular, desenvolvida por Chirac, juntava-se uma ação secreta. Em 4 de fevereiro, o número 2 da diplomacia francesa, Bertrand Dufourcq, foi a Bagdá, onde reuniu-se com Saddam. Mais tarde, a França fez pressão para que os EUA não vetassem a missão de Annan. E foi Paris quem sugeriu a Annan a idéia de que a fiscalização, no Iraque, poderia ser feita com luvas de pelica.
Foi Paris quem teve a boa idéia de pôr o avião do Eliseu à disposição de Annan, para que ele pudesse ir a Bagdá. Chirac pode, portanto, vangloriar-se de ter marcado um tento ao calçar as botas antiamericanas de De Gaulle. Além disso, deu provas de fineza: enquanto a Rússia virava carta fora do baralho por estar apoiando com paixão demasiada as posições iraquianas, a França conseguiu ficar numa linha média, entre os EUA e o Iraque.
A Grã-BretanhaNada de muito importante a dizer. Tony Blair correu para o lado de Washington, renovando a tradicional lealdade da Grã-Bretanha em relação aos EUA. Nada de novo sob o sol e nenhum ganho para a diplomacia londrina, pois a guerra não aconteceu. E, uma vez mais, uma punhalada no sonho (aliás absurdo e irrealizável) de uma diplomacia européia comum.
É curioso constatar que o episódio de 1998 assume a contrapartida exata do de 1991. Naquela época, todo o mundo civilizado alinhava-se sob a bandeira dos EUA, dos quais a própria ONU não passava de instrumento dos mais maleáveis. O esmagamento rápido de Saddam Hussein permitiu a Bush explicar urbi et orbi que, daquele momento em diante, a URSS tinha caído do galho, a ordem americana tinha triunfado e ia gerir o mundo. Voltamos, com isso, a uma das imagens mais míticas da Antiguidade, a da Pax Romana.
O mundo saiu finalmente de sua adolescência, de suas crises, de suas maluquices, de suas guerras. E um dos conselheiros de Bush, Francis Fukuyama que, além de tudo, é filósofo, publica um livro de sucesso para explicar que a profecia enunciada pelo filósofo alemão Friedrich Hegel, em 1806, depois da vitória de Napoleão na Batalha de Iena, vai finalmente cumprir-se com um século e meio de atraso: A Guerra do Golfo fez soar o fim da História.
Esse anúncio era ridículo e os genocídios da África, da Bósnia, os conflitos que se multiplicaram, os horrores de todos os tipos mostraram logo como ele era cretino. Quanto à Pax Americana, essa aí também não deu certo, e se a hegemonia americana permanece, é em termos bem menos absolutos do que se achava depois da Guerra do Golfo.
Em 1991, foi uma festa para os jornalistas americanos e, em especial para os da CNN que, para grande cólera dos outros jornalistas ocidentais, e também dos iraquianos, tinham tomado a guerra nas mãos, desenhando-a, colorindo-a, tornando-a limpinha. Em 1998, a CNN fez o que pôde para reencontrar o brilho daqueles tempos heróicos que, de lá para cá, anda um tanto embaçado, e despachou, para a região, batalhões de repórteres, que manejam as suas câmaras fotográficas, do tamanho de mísseis Scud, com a mesma habilidade com que um terrorista argelino manobra a sua faca.
A Guerra do Golfo tinha sido um fabuloso golpe dos meios de comunicação para a CNN e também para a democracia e a liderança dos EUA. Em 1998, a guerra que não aconteceu foi, uma vez mais, um formidável golpe dos meios de comunicação, só que no sentido inverso: Bagdá acolheu centenas de televisões estrangeiras e os amarra-cachorro de Saddam Hussein só tinham sorrisos para os jornalistas: Vem cá, filha, pode filmar, sim, tudo o que você quiser, esteja à vontade meu amigo, manda ver... E as televisões estrangeiras não pararam de filmar... O quê? Uma população inocente, mulheres e crianças famintas e desesperadas após um ano de bloqueio. E o número 2 de Bagdá, Tarik Aziz, encorajava o pessoal da imprensa: Vamos lá, façam-me o favor, filmem tudo o que quiserem...
É, até mesmo em matéria de imprensa e meios de comunicação, 1998 foi o contrário de 1991...


