Abu Ghraib abriu uma caixa de Pandora
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sábado, 22 de maio de 2004
Patrick Anidjar<br> France Presse 
Washington - O escândalo sobre abusos e torturas contra detentos na prisão iraquiana de Abu Ghraib, em princípio apresentado pelos Estados Unidos como um caso isolado, provocou uma reação em cadeia que revela fatos semelhantes cometidos por militares americanos em outros lugares.
A polêmica desencadeada com a difusão das primeiras fotos de maus-tratos no dia 28 de abril, continua acossando o governo do presidente George W. Bush, que está sendo inclusive criticado pelo Congresso, os órgãos de comunicação e pela opinião pública, a menos de seis meses das eleições presidenciais de novembro.
O conhecimento de um primeiro vídeo e novas imagens particularmente explícitas divulgadas sexta-feira, assim como depoimentos sobre torturas, humilhações sexuais e insultos antimuçulmanos, se juntaram no final da semana ao enorme questionamento da administração republicana.
''A porta só está entreaberta'', declarou à AFP o professor Laird Anderson, especialista em ética governamental. ''Apenas começamos a ficar em dia sobre essas terríveis ações cometidas por soldados e também por oficiais de alta patente'', acrescentou.
Depois de três semanas de revelações da imprensa, os militares começam a reconhecer que podem existir outras Abu Ghraib em outras regiões controladas pelo exército americano.
Um caso revelador é o da prisão da base naval americana de Guantánamo (Cuba), onde o tratamento dispensado aos ''combatentes inimigos'' se mantém no maior segredo e somente esta semana o exército começou a admitir que ali podem também ter sido cometidos abusos.
Entretanto, os militares se negam a admitir o caráter sistemático dos tratamentos sádicos e inclusive torturas infligidas aos detentos.
O chefe do comando central, general John Abizaid, admitiu ante o Comitê das Forças Armadas do Senado que estão sendo investigados 75 casos de abusos, mas que essas práticas não foram generalizadas. Vários casos de homicídios no Afeganistão também são investigados, acrescentou.
Nesse país foi iniciada uma investigação após as denúncias sobre maus-tratos infligidos a prisioneiros, apresentadas particularmente por um ex-oficial da polícia afegã detido em Gardez (sudeste) e em Kandahar.
O exército americano ordenou ainda ''um exame e revisão profunda'' em centros de detenção no Afeganistão, segundo um porta-voz militar. A prisão de Kandahar poderá ser aberta a uma visita do Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) depois dessas acusações.
O chefe do estado-maior conjunto americano, general Richard Myers, reafirmou na sexta-feira que ninguém autorizou oficialmente no Iraque métodos de interrogatório desumanos ou contraditórios com a Convenção de Genebra sobre o tratamento de prisioneiros.
Declarações que não dissipam os temores do professor Anderson, que acredita que aparecerão novas revelações. ''O pior ainda está para chegar'', previne.


