A população americana está em estado de choque. As reações pós-atentado são variadas. Não vou aqui me ater a comentar sobre a reação em geral dos americanos, que é de muito patriotismo e solidariedade, pois essas têm sido amplamente retratadas pela imprensa brasileira e de todo o mundo. Vou me permitir comentar as reações das pessoas com as quais convivemos, o que me parece mostrar uma perspectiva diferente da situação como um todo.

No hospital e clínica onde trabalha meu marido, que é médico, as pessoas estão mais quietas, mais cuidadosas com os comentários, limitando-se a lamentar. Ao que nos parece, isso se deve ao fato de lá terem contato com muita gente de diferentes nacionalidades (a comunidade árabe aqui é imensa) e a discrição realmente parece ser a melhor opção.

Em compensação, em meu ambiente de trabalho, um escritório de advocacia, as coisas têm sido bem diferentes. Juntando a privacidade do local, mais o senso crítico apurado nato dos advogados, a coisa pega fogo. Os comentários giram em torno da insatisfação com a postura do presidente Bush e o desejo de vingança.

Entretanto, o que mais me surpreendeu nisso tudo é o tom sarcástico com o qual eles se referem ao acontecido. Todos os comentários têm um tom irônico, ficando claro a enorme revolta de terem sido atacados em seu próprio território. Já propuseram fazer várias camisetas em ''homenagem'' a tragédia, contendo, por exemplo, ''Kabul kabobs!'', que significa ''Kabul no espeto de churrasco''. E outras mais ousadas.

Com relação a Bush, admito que não tinha me apercebido de um detalhe. Eles acharam um absurdo a primeira manifestação oficial ter se dado dentro de um colégio de crianças na Flórida. Eles disseram que o mínimo que o presidente poderia ter feito era ter se dirigido ao Air Force One, para falar à nação.

O clima de guerra e seriedade não combina com um cenário de colégio infantil, onde Bush se apoiava em uma carteira para falar. Ao que me parece, nesta hora em que a auto-estima deles foi brutalmente atingida, eles sentem a necessidade de um líder em que possam sentir segurança e mais que isso, orgulho!

Ontem, estávamos todos reunidos na biblioteca do escritório, quando um dos advogados pediu para que eu, a única estrangeira presente, dissesse o que faria numa situação dessas caso fosse líder do país. Situação delicada, pois além de eu ainda estar meio anestesiada com a tragédia e não ter até então pensado no assunto, teria que dar uma resposta de pronto, na frente de todos e de maneira ponderada e responsável.

Não sei se por qualidade ou defeito, acabo sempre por falar o que realmente sinto. Respirei fundo e disse que achava que os EUA deveriam punir sim os responsáveis e de maneira certeira. Afinal, toda a imprensa estava ressaltando como eles não eram tão independentes e poderosos como sempre fizeram crer.

Então, todos disseram que concordavam com a punição e que isso deveria ser feito com a bomba atômica. Eu discordei e disse que os EUA, com todo seu arsenal bélico, haveriam de ter uma maneira de fazer isto sem que atingissem outros países. Um deles, referindo-se ao Afeganistão, disse que todos daquele lado eram atrasados, loucos, fanáticos e que matavam mulheres e criancinhas.

Vi-me forçada a dizer que apesar de concordar que ''aqueles'' são fanáticos, eles, americanos, tinham que respeitar as diferenças culturais de cada país. Não sei se eles gostaram ou não. Só sei que hoje, um dos advogados veio até mim querendo saber mais sobre o Brasil.

Esta tragédia de proporções fenomenais deve servir para algumas coisas: tanto mostrar ao mundo a força da solidariedade americana, como para que os americanos percebam que além deles, outros países também ocupam o planeta.



- VIVIANE NORONHA CANZIANI PAGANI é advogada, londrinense, e trabalha em um escritório de advocacia em Houston

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