Parece questão regional ou estadual essa atuação da Sanepar do Paraná. Longe disso. O que acontece com essa empresa é uma foto instantânea e digital do que se repete de maneira MÚLTIPLA nos mais diversos planos do País. E vale a advertência: QUEM SE ATREVER A FICAR AO LADO DO INTERESSE NACIONAL, SERÁ MASSACRADO PELO INTERESSE MULTINACIONAL. Resumindo e sumarizando, para julgamento do cidadão-contribuinte-eleitor.

A Sanepar é empresa importantíssima para o Paraná. Trata de abastecimento de água, de drenagem urbana, remoção de resíduos domésticos, proteção do meio ambiente, todos os serviços relacionados com a saúde da população, por via de destruição das condições de vida naturais. Era uma empresa de economia mista. (Devia ser totalmente estatal, como obrigatoriamente deveria ser a Petrobras e será certamente um dia, mas por falta de independência nacional ficou assim).

Em 1997, no desastroso governo Lerner, piorou muito. Com uma simples lei estadual (se conhece a forma fácil como é conseguida) o Estado do Paraná alienou (quer dizer: entregou) uma parte enorme do capital da Sanepar. Explicação, justificação e falsificação: ''O governo mantém o controle da empresa, pois fica com maioria das ações com direito a voto''. Esse é o expediente cínico, usado na Sanepar e até nas maiores empresas do Brasil.

Com base nessa lei estadual, a Sanepar ENTREGOU ações num total de 40%, ou melhor, 39,71%. Quem comprou? Um consórcio formado pela Vivendi, Andrade Gutierrez e o Banco Opportunity. Basta verificar a procedência e a atuação desse grupo para saber que só ''entraram'' porque era um grande negócio. Se não fosse não participariam. E se era e é um extraordinário negócio para eles, logicamente não era para a Sanepar.

Vivendi - Grupo falido da França, que deu prejuízos gerais de DEZENAS DE BILHÕES DE DÓLARES. Andrade Gutierrez - Empresa sempre metida em empreitadas (é uma empreiteira, o que no Brasil lembra logo Paulo Maluf) polêmicas, ganhadora de ''concorrências'' quase sempre contestadas na licitação, no preço e na execução do serviço. Opportunity. Bem, basta dizer o nome do seu controlador, Daniel Dantas, mostrar seu currículo e o assunto está encerrado.

Mostrando a competência do grupo, já entraram ganhando 25% na compra das ações. O preço patrimonial e de mercado das ações da Sanepar era de 2,95%, pagaram 2,17%. Que maravilha viver. De 1997 a 2002, portanto em 5 anos, esse grupo (que se identificou como DOMINÓ, talvez porque a palavra é internacionalmente ligada a uma derrubada geral) já retirou da Sanepar a títulos mais diversos quase 130 milhões de reais. É um investimento sem riscos, e de tal maneira importante para a coletividade que deveria pertencer integralmente ao cidadão, através de governos municipais, estaduais ou federais.

Esses quase 130 milhões que deveriam ser REINVESTIDOS nos serviços foram entregues a aventureiros do lucro, que sem qualquer preocupação ganham em cima do cidadão. Logicamente não somos contra o lucro. Vivemos e queremos continuar vivendo num regime democrático, e nesse regime o Deus máximo e absoluto tem que ser o lucro.

Mas esse lucro não pode ser JOGADO ALEATORIAMENTE NOS COFRES DOS MAIS DIVERSOS GRUPOS, E SIM CONQUISTADOS COM TRABALHO, ESFORÇO, SERVIÇO E NATURALMENTE RISCO. Os lucros sem risco em serviços obrigatórios devem pertencer sempre ao cidadão.

Não vou me aprofundar mais demoradamente esmiuçando os prejuízos da Sanepar, do Estado do Paraná e logicamente do cidadão. Esta é a defesa de uma tese com 3 pontos principais, que deveriam servir de advertência para todo e qualquer vereador, prefeito, deputado estadual, federal, senador, governador, presidente da República, todos eleitos pelo povo.

1 - Não se deve entregar a multinacionais (nem mesmo a empresas nacionais) a exploração de serviços obrigatórios e sem riscos.

2 - Permanecendo essa legislação traidora do interesse do Brasil, o cidadão, seja quem for e qualquer o cargo que ocupe, será inapelavelmente exposto diante do público, com as mais violentas acusações. Isso acontece no momento com o governador do Paraná, Roberto Requião. Se a Sanepar fosse de São Paulo, Rio, Acre, Rondônia, o massacrado seria o governador de lá.

3 - Já cometemos esse crime incrível com a maior empresa brasileira, a Petrobras. No retrocesso de 80 anos em 8 de FHC, o BNDES foi OBRIGADO a vender quase 40 por cento de suas ações sem direito a voto. Diziam a mesma coisa: ''A Petrobras continuará com o controle total''.

PS - Na Petrobras, mentiram duas vezes, e isso deveria ser punido drasticamente. A) - Disseram que as ações seriam COMPRADAS PELO POVO. Este ficou apenas com 2%, que já vendeu.

PS 2 - B) - As multinacionais RETIRAM todo ano BILHÕES E BILHÕES da Petrobras como dividendo, dinheiro que deveria ser REINVESTIDO na empresa.

(Publicado no jornal Tribuna da Imprensa (RJ) do dia 13 de julho de 2004.)

mockup