Renan Antunes de Oliveira
Agência Estado
De Martha’s Vineyard, EUA
O mar amanheceu calmo nesta quarta-feira na região da ilha de Martha’s Vineyard, com a água muito fria, de um azul profundo - e escondia dentro dele, a 11 quilômetros da praia e 45 metros de profundidade, o corpo mutilado de John Kennedy Junior, preso nos destroços do Piper Saratoga.
Para um punhado de gente que estava na praia de Gay Head, e para milhões de norte-americanos que acompanhavam as buscas pela mídia, a descoberta do corpo por um robô da Marinha foi o fim da esperança. Até então, muitos ainda torciam por um milagre. A mulher dele, Carolyn, e sua cunhada, Lauren, também foram encontradas.
A entrada em ação do navio U.S. Grasp, com equipamentos especiais para detectar objetos submersos, foi decisiva para o achado - nos três primeiros dias de busca, tripulantes de barcos e aviões procuravam a olho.
A operação bem-sucedida começou com computadores analisando dados do vôo captados por várias estações de radar, estimando um ponto possível de impacto na água + o que os norte-americanos chamam de ‘‘splash point’’.
Uma vez demarcado o ‘‘splash’’, sonares localizaram objetos submersos. Na terça à noite, uma câmara montada num robô foi lançada no local pelo Grasp. As imagens que ela mandou do fundo do mar mostraram o avião e um corpo mutilado na cabine. A lente captou até os números do avião. Os militares mantiveram a descoberta em segredo até avisar a família e a Casa Branca.
O encontro da cabine do avião foi uma surpresa para os especialistas da Marinha e da NTSB, a agência federal que investiga acidentes aéreos. Até então, presumia-se que o aparelho tivesse se desintegrado num violento choque no mar. Suportavam a tese o encontro de pequenos objetos, dias antes, na praia e no mar - uma roda, a bagagem de Lauren, documentos do avião, um pedaço de fuselagem, outro dos bancos, um sapato de mulher.
O corpo de John-John foi retirado do mar por mergulhadores por volta do meio-dia. Em seguida, o senador Ted Kennedy foi levado da casa de Hyannisport para o Grasp, onde viu o que sobrou do corpo de seu sobrinho.
Na praia de Gay Head, curiosos se revezavam num mirante, em binóculos que funcionam com moedas de 25 centavos, para ver o Grasp em operação - mas a imagem dele no mar era apenas uma pequena mancha cinza no horizonte.
No balcão de um restaurante no cais de Woods Hole, em Martha’s Vineyard, a notícia do achado do avião foi o assunto do dia. Pescadores, marinheiros, moradores da ilha e turistas assistem à CNN, desfiando opiniões sobre o acidente - um retrato do que acontece em diferentes rodinhas, na mídia e em todo país.
Um senhor com chapéu de Popeye disse que estava muito triste com a morte de Kennedy, mas jogou a culpa nele mesmo: ‘‘Sabe-se agora que John Junior não estava habilitado a pilotar por instrumentos em vôos noturnos, portanto nunca deveria ter arriscado a viagem que fez, sob neblina e à noite’’. Ninguém reage.
Uma mulher degustando lagosta revela que tinha sido convidada para o casamento de Rory Kannedy (John e Carolyn voavam de New Jersey para a festa, em Hyannisport, onde nunca chegaram). Todos olham para ela com inveja e admiração.
Um motorista de táxi entra na conversa. Tenta fazer piada, dizendo que o acidente trouxe tantos turistas extras que ele estava faturando US$ 1.500 por dia - recebe olhares de reprovação e sai da roda.
Alguém lembra do sofrimento possível dos passageiros nos últimos momentos do vôo, quando o aparelho caía descontrolado. Todos fazem silêncio. Um homem elegante, carregando seus tacos de golfe, chega, pede um gim. Um garçom quebra o silêncio e o convida a entrar na conversa. Ele foi curto e fatalista: ‘‘Acidentes acontecem.’’
O piloto de um barco de um milionário local reclama que o governo está botando muito dinheiro no resgate, mobilizando militares e recursos especiais, nunca usados na busca de cidadãos comuns perdidos no mar.
Abre-se uma discussão democrática sobre o uso do dinheiro público na empreitada. ‘‘Se fosse meu filho, ninguém estaria procurando por ele’’, concorda o homem do Popeye. ‘‘Você já foi presidente? É filho de presidente? E filho de presidente é cidadão comum?’’, pergunta, em sequência, a senhora da lagosta.
O homem dos tacos de golfe pede licença para opinar outra vez. Concedida. Ele reclama do excesso de cobertura da mídia norte-americana. ‘‘John gostava de se sentir como um homem comum, deveria ser tratado assim pela imprensa, a cobertura deveria ser mais discreta.’’
A senhora da lagosta discorda outra vez: ‘‘Quero ler tudo o que sair sobre eles. Morreram jovens e bonitos, acho que todos devemos chorar a morte da beleza e da juventude.’’

mockup